Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.

Há exatamente 24 horas atrás estive a conversar com uma senhora no centro da minha cidade. A cidade de Mainz, onde nasceu João Gutenberg,  e todos os anos há uma grande festa em sua homenagem. A MINHA cidade não é muito conhecida, ou melhor não é tão conhecida como a minha cidade, Salvador da Bahia, onde nasci e me criei, ou melhor dizendo, onde fui criada com irmãos e irmãs, tias primas, avos, amigas e amigos pai e mãe, vizinhas e vizinhos, sobrinhas e sobrinhos.

Todes deixei em Salvador quando EMIGREI para a Alemanha. Assim como eu muitas pessoas que chegam aqui abriram mão de estar ao lado dos seus, alguns são obrigados a fugir por conta de guerras, outros simplesmente por amor, outros porque não conseguem mais sobreviver em regiões que sofrem com o efeito da catástrofe climática.

São muitos os motivos. Desde que o mundo é mundo as pessoas se movimentam vão e vem e querem ficar onde elas possam viver e ter direitos universais.

Ontem na minha conversa com uma mulher alemã que conheceu os horrores da guerra quando criança ela explicou porque sabe da responsabilidade de sair de casa, num frio de zero graus e estar na rua, na praça conversando com outras pessoas, para mostrar que ela sabe que a tragédia do fascismo não pode se repetir e que a hora de ocupar esses espaços públicos é agora. Esta senhora que chamarei aqui de Helga por ser um nome considerado típico alemão, faz parte do grupo de “Omas gegen rechts – vovós contra a direita”.

Provavelmente já chegou à muitas pessoas o grande fenômeno que estamos vivendo nesses últimos dias na Alemanha. Centenas de pessoas vão às ruas para dizer e  mostrar que não querem o partido que se  auto-denomina “alternativa”. Membros do alto escalão deste partido participaram de uma reunião onde foi discutido a deportação de pessoas que não combinam com a desolada e nefasta ideia de um povo “ariano”. Pra quem já leu meus textos, sabe que já escrevi sobre o fato que os arianos são pessoas nascidas no Iran e não têm absolutamente nenhuma relação com os Teutões, ou seja, como o país que hoje denominamos de Alemanha.

Um plano de deportação foi discutido nesta reunião foi batizado com o nome de “REmigração”. Esse vocábulo ainda não havia sido descrito em nenhum dicionário da língua alemã e por isso vemos que mais uma vez a injustiça começa com uma palavra. Demonstrando o perigo da possibilidade de ocupar espaços, praças e redes sociais para planejar suspender o que chamamos de Direitos Humanos e assassinar a democracia. A insanidade deste grupo não tem limites. Há o plano de deportarem não só pessoas que têm uma descendência de outro país, mas também cidadãos alemães. Receber a cidadania alemã não é fácil.

Mas a grande mensagem é que, nunca vi, em trinta e um anos morando nesta cidade uma demonstração tão calorosa. Apesar do frio muitas, mesmo muitas pessoas ocuparam as praças das cidades na Alemanha pra dizer: “Nie wieder ist jetzt” – Nunca mais é agora. É agora a hora de dizermos que não vamos aceitar que seres humanos sejam deportados e maltratados, pessoas que trabalham e que aqui construíram famílias, que pagam impostos, que durante o período da COVID-19 não puderam fazer home-office porque continuaram levantando todos os dias para trabalhar nos abrigos de velhos, para dirigir os ônibus, nas escolinhas, trens, transportar pacotes para que muitos outros estivessem em segurança e por isso, sobrevivemos à pandemia, por isso podemos estar nas ruas e dizer: “Fascismo nunca mais”.

As pessoas que marcharam nas cidades Mainz, Frankfurt, Hamburg, Munique,Berlin, Colonia,  e tantas outras, com famílias , crianças,  sabem que todos nós temos um inimigo em comum: o populismo. Os gritos dos populistas são sempre muito altos.Eles gesticulam porque no fundo não têm nada para dizer e muito menos o que oferecer para a sociedade, para trabalhados ou para crianças nas escolas que mais tarde irão assegurar nosso futuro, nossas aposentadorias.

Sem imigração a Alemanha não sobreviverá. Sem imigração não haverá a possibilidade de uma vida em paz e digna porque a economia precisa de mão de obra, precisa de pessoas que estão dispostas a dedicar sua vida ao trabalho.

Nós somos o povo e o povo tem o poder de ocupar as praças para dizer não às injustiças e dizer que temos o direito de ir e vir. Nunca disse com tanta firmeza que faço parte de um povo que sabe que tem a força para não deixar repetir uma tragédia humana, para não permitir holocaustos, Maafas, se soubermos que somos povo e devemos ocupar sempre as praças quando for necessário. Levantarmos a nossa voz para dizer que aqui estamos e aqui estaremos e não permitiremos que os injustos calem a nossa voz. Eles certamente inventarão novas palavras para mascarar suas ideologias de direita, mas enquanto estivermos aqui não nos calarão.

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