
Nos últimos dias tenho refletido e muito uma pergunta feita pelo meu filho de 9 anos de idade, que revela a profundidade das preocupações que rondam a mente das crianças e jovens em meio ao cenário político atual da Alemanha. Com olhos cheios de inquietação e medo, ele questionou: “E se o AfD ganhar, mamãe? E se eles nos deportarem e ao meu melhor amigo que já não tem mais um lar na Somália?” Chocada, entristecida, mas mantendo-me firme, abracei-o e prometi que não deixaríamos isso acontecer, que a legislação nos protege, mas também as ruas, pois muitas pessoas estão se posicionando contra isso. Contudo, a reflexão que se seguiu, me fez perceber a inegável presença do medo que a reportagem do centro de jornalismo investigativo “Correctiv”( https://correctiv.org/aktuelles/neue-rechte/2024/01/10/geheimplan-remigration-vertreibung-afd-rechtsextreme-november-treffen/ ) nos traz. Nele se torna claro e concreto que neste encontro, entre membros do alto escalão do partido de extrema direita AFD, empresários e personalidades da cena neonazista do país, se formula estrategicamente um plano, uma política de “remigração”, ou seja, repatriação de imigrantes e descendentes. O medo estabelecido em nosso meio é de alguma maneira uma vitória do AfD e da extrema direita.
A extrema-direita no seio da sociedade alemã
Ao abraçar meu filho, percebi que a fantasia de uma possível deportação (mesmo estando nós dois em situação legal no pais), é o medo feito presença indesejada em sua vida pré-adolescente, na nossa vida, para além das tensões já conhecidas de uma mãe-solo, em processo de transição profissional, doente crônica e aos quase 50 anos de idade. Uma sombra provocada por uma atmosfera no país, que tem a sua história recente marcada por fatos e indicadores sistemáticos da ascensão da extrema direita nos espaços institucionais e do poder. Fatos estes que há muito são conhecidos, denunciados por organizações da sociedade civil, coletivos, especialmente por grupos e iniciativas que se posicionam de forma critica e independente. E que na atual conjuntura da Alemanha são estigmatizados e em muitas vezes criminalizados.
O caso do NSU (Clandestinidade Nacional-Socialista) é emblemático, evidenciando falhas nas instituições de segurança e apontando para a presença de extremistas infiltrados nas instituições de estado. Uma célula terrorista foi responsável por uma série de assassinatos racistas, atentados a bomba e assaltos entre 2000 e 2007, revelando falhas no monitoramento e investigação das autoridades na Alemanha. Desde então, nós ativistes, coletivos, organizações antirracistas nos colocamos na linha de frente para que a chamada “demokratische Erinnerungskultur”( uma cultura de memória democrática) em relação ao episódio do NSU se estabeleça na sociedade para que este caso não se repita.
Hanau ist Keine Einzelfall (Hanau nao é um caso isolado)
Ao ler sobre a ideia de um “masterplan” para a deportação, me apareciam na mente imagens de episódios de violências raciais de pessoas conhecidas, estatísticas, casos que apareceram na mídia, e se mesclavam com as minhas próprias memórias corporais das violências raciais que sofri, especialmente nos últimos três anos. Uma solidão imensa.
Mas era sobretudo, o Massacre de Hanau, o mais intensivamente presente.Uma cidade vizinha. Um ataque armado ocorrido em 19 de fevereiro de 2020. Eu me encontrava exatamente de volta ao Brasil, quatro anos depois da morte do meu marido. Me reencontrando com a vida, com o carnaval que estava já à espreita, eu preste a “dar Borí”, dando os primeiros passos na minha iniciação no candomblé, quando Tobias Rathjen, um homem com crenças xenófobas e racistas, realizou uma série de tiroteios em dois locais, alvejando bares frequentados por pessoas de ascendência estrangeira. Nove pessoas foram mortas e várias ficaram feridas antes de Rathjen tirar a própria vida. Há quatro anos familiares e sobreviventes seguem em luta desigual com as instituições do estado alemão, por justiça. O ciclo vicioso de “fatos isolados”, como se costuma tratar episódios violentos de cunho racial e xenofóbico, que se acumulam explodindo as estatísticas das instituições de estado e da sociedade civil, mostram claramente a dimensão estrutural e sistêmica do racismo há muito estabelecido no país.O medo persiste.
O medo precisa ser visto
Meu filho em idade escolar certa vez partilhou comigo que seu amigo da Somália tinha „perdido a cabeça” de raiva, devido aos coleguinhas de classe dele o terem chamado de “Afro-Affe”. E isto na escola primária. Um estudo de 2022 da Secretaria de Educação do Estado de Hessen, onde 9.500 estudantes foram entrevistados mostrou que 70% dos estudantes da rede pública já vivenciaram episódios de racismo na escola. 25% desses casos foram praticados pelas professoras e professores. Com este cenário crianças como meu filho, e seu amiguinho que tem um corpo visivelmente mais racializado que o meu filho, realizam desde muito cedo serem “corpos estranhos” na sociedade. O medo que os cerca nesse atual momento, é o reconhecimento na tenra idade de uma imaginação de não pertencimento.
O AfD, neste momento é o “bode expiatório” dos problemas da nação. Uma narrativa confortável que desresponsabiliza instituições de estado, partidos políticos oportunistas, pessoas concretas no seio da sociedade, meu vizinho, a médica, o motorista de ônibus que incomodado com uma ligação telefônica xinga e humilha uma mulher negra deflagrando uma onda de ódio dentro de um ônibus público. Existe um mundo invisível e real que justifica o medo de nossas crianças e jovens e o nosso enquanto adultos trabalhadores, pagadores de impostos, e também concidadãos e cidadãs deste país.
Comunidades migrantes, levantem-se!!
Ao assegurar ao meu filho que a lei nos protege e que as ruas serão um espaço de resistência, percebo a necessidade urgente de enfatizar a importância da defesa dos direitos que construímos como sociedade no cotidiano, no dia-a-dia das nossas vidas. Historicamente nos organizamos enquanto imigrantes para garantir nossos direitos à língua, estada, a inserção no mercado de trabalho, termos espaços para nossas vivencias culturais das nossas comunidades etc. Seguiremos a nossa prática, neste sentido, especialmente para a garantia de nossos direitos inegociáveis e dialogo democrático. Mas o momento apela para irmos além. Há uma urgência para nos posicionarmos sobre qual o projeto de sociedade que queremos. Que estratégias de empoderamento de nossas comunidades sem clientelismo podemos lograr. Pois quando se trata de vencer o medo da ameaça sobre os nossos corpos e proteger as nossas crianças, é preciso agir para além das zonas de conforto. Tornar visível os desafios cotidianos, para que a grande massa do país, e inclusive das pessoas que estão nas ruas, e que não são atingidas diretamente com o olhar racista e xenofóbico da extrema direita, atuem para além das mobilizações. E reflitam com elas mesmas criticamente, onde elas se posicionam diante de um cenário ameaçador onde racismo e avanço da extrema direita se mesclam.
O questionamento do meu filho foi um chamado de despertar individual, no pequeno universo onde vivo, uma família monoparental negra e migrante. O AfD pode tentar ganhar no campo político, mas a verdadeira vitória está em nossa capacidade de resistir ao medo que tentam incutir em nossas famílias. Nossas crianças merecem crescer em um ambiente seguro, sem preocupações sobre suas existências e vislumbrar futuros. É preciso usar nossa voz, nossos corpos posicionados nos espaços invisíveis fora das ruas, para construir um futuro onde a diversidade seja respeitada e não tolerada! Onde o medo não tem lugar e a justiça prevalece.
#extrema






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