Betânia Ramos Schröder – socióloga, ativista, mãe e autora, residente em Frankfurt. Há vinte anos fora do Brasil trabalhou como cooperante internacional e consultora em países como Alemanha, Angola, Turquia e Bósnia e Herzegovina nas áreas de desenvolvimento local, participação política e reconstrução nacional pós-conflitos armados. Iniciadora da coletânea de ensaios de mulheres afro-brasileiras “O legado de Marielle Franco e as Mulheres Afro-brasileiras da Diáspora em Frankfurt e Mainz”. Membra da Associação BrasilNilê e.V , Coletivo Afrobras: enegrecendo Frankfurt e da diretoria da Pan-African Women’s Empowerment & Liberation Organisation e.V.

Há muito venho testemunhando, refletindo e me deixando inspirar pela força da cultura política de pessoas e grupos migrantizados na minha cidade, num país onde não tenho nacionalidade. É inegável que a dinâmica global contemporânea é marcada por fluxos migratórios que trazem consigo não apenas pessoas, mas também as complexas teias de experiências de organização social e política dos nossos territórios de origem. E isto é muito enriquecedor.

Ao caminhar pelas ruas da diversidade do meu bairro de Bockenheim em Frankfurt, observo os cafés, especialmente o Café de uma família curda muito querida, que sempre me acolhe com carinho, desde que souberam que vivi um ano na cidade de Diyarbakir, a capital secreta do Curdistão no leste da Turquia. Uma vivência que influenciou significativamente os meus posicionamentos internacionalistas e se tornou um elo de comunicação, diálogo e conexão aqui na minha nova cidade, especialmente quando comecei com o fotojornalismo. Este me proporcionou um olhar sobre a resistência política curda no território alemão, quando cobri manifestações no país e entrevistei ativistas na busca de entender a logística da comunicação nas mobilizações que aconteciam aqui na cidade, os envolvimentos de comunidades diaspóricas de países vizinhos etc. Estava começando em Sarajevo uma formação em fotojornalismo, mas pela mudança repentina da minha família para a Alemanha, abandonei o meu curso especialmente com o adoecimento e morte do meu marido.

A vida na Alemanha me faz olhar com mais afinco na busca de compreender a cultura política de nós imigrantes em Frankfurt. Não é um olhar sociológico que me motiva. Ele transcende teorias ocidentais viciadas no meu discurso e escrita, que reconheço sem hipocrisia a influência disso tudo, por viver quase a metade da minha vida na Europa e o duro caminho da decolonialidade dentro desse território. Há em mim uma busca ativa para cada vez mais ser fiel a quem sou realmente e como ressignifiquei trajetórias, experiências com os movimentos sociais de base na América Latina, mas sobretudo as minhas vivências em África e em sociedades tensionadas por conflitos armados oficialmente findados, mas latentes na cultura organizacional e político. Carrego um interesse e curiosidade para saber como esses conflitos cruzam fronteiras e se manifestam em estéticas de luta, em organizações e força diaspórica especialmente no Norte Global, onde me encontro, e que sinais de transformação eles nos indicam .

A força da cultura política no seio das comunidades diaspóricas potencializa e transforma discursos e práticas. Sinto em mim e vejo que elas pluralizam visões viciadas na sociedade, trazem novos impulsos. Vejo o papel edificante das comunidades afrodiasporicas conectadas aos países de origem de suas lutas, ao exigir na Alemanha reparação e devolução de objetos usurpados no período colonial europeu em África. Grupos organizados que trazem o debate racial na crise climática, ao se  posicionarem nas ruas, palestras e eventos em geral, promover presenças indígenas e afrodiaspóricas, quilombolas do sul global, que falem por si, sem intermediários, para serem ouvidas sobre os desafios do extrativismo desenfreado do Norte Global nos seus territórios para transição energética, ao custo da contaminação dos recursos hídricos, da miserabilidade da vida nas zonas de exploração de minérios, da morte da vida da terra e dos seus povos ligados aos diferentes biomas existentes. Um movimento crescente que também tem como consequência ajustes nas praticas e discursos de organizações ecológicas do norte global que abraçam a justiça climática como narrativa.

Na “comunidade” diaspórica, onde de alguma forma pertenço, o Impeachment da Presidenta Dilma Roussef e advento da extrema direita no poder, redesenharam a estética das organizações brasileiras na minha cidade, com uma diversidade de organizações, iniciativas, que nasceram e morreram de um processo de politização em defesa da democracia brasileira contra o avanço da extrema direita. Os que resistiram seguem de alguma maneira reajustando seus papeis e discursos frente à vitória do Governo Lula, mas a permanência da extrema direita que tem no Bolsonarismo sua forma mais visível.

Essas experiências só são possíveis graças à conquista da diversidade da participação política e social de imigrantes. Mas esta diversidade está sob ameaça se não sairmos em defesa das nossas conquistas e diálogos neste território. Escrevi recentemente nas redes sociais que “na contracorrente há um movimento crescente de deslegitimação de corpos-territórios que se movimentam na auto-organização, nas reivindicações por justiça. Corpos que trazem questões incômodas, por não dialogarem apenas no sentido de pertencer à estrutura! A chamada ‘política identitária’ tem sido o lugar reduzido onde as lutas históricas anticoloniais, gênero, o racismo sistêmico na sociedade alemã, as desigualdades, a desnazificação não findada, os reconhecimentos de corpos invisíveis na memória do Holocausto como negros, Roma-Sinti, LGBTQIA+ entre outras questões de chamados ‘grupos específicos’, estão sendo colocados. O mesmo lugar que a extrema direita, pela ‘racionalidade lógica’ desse pensar.” E nessa corrente, percebe-se tendências de censura e perseguição a grupos progressistas e de esquerda que expressam solidariedade ao povo palestino. Uma ameaça premente para todos nós.

Ao encerrar esta reflexão, percebo que enfrentamos desafios consideráveis em nossos microcosmos políticos e na sociedade em geral, correlacionados com a insistência do controle dos nossos corpos, das nossas vozes. Gostaria de ser otimista com o futuro, mas no atual momento, vejo cansaço, atomização e silenciamento político de muitas iniciativas e pessoas que se retiram dos espaços. Estamos na Encruzilhada. Tempos para proteger, curar e refazer nossos caminhos coletivamente.

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