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Chego no Brasil. Ainda no aeroporto ouço o meu idioma materno e me emociono. Entendo tudo naturalmente, sem pensar ou fazer nenhum esforço.
Olho as pessoas e vejo outros rostos, corpos diferentes dos que tenho visto nos últimos quinze anos, desde que deixei meu país natal.
Vou para a casa da minha mãe e do meu pai. Foi, é e será sempre a casa dela, dele.
Carrego comigo uma bagagem cheia de amor, de afeto… Lembranças que me acompanham por todos os lugares em que viajo. A bagagem não muda.
Mas aqui… agora… A começar pela rua de casa, pequena – tem só duas quadras. Na porta do número 172 há uma árvore japonesa que meu pai plantou. Papai era um homem do campo. Amava e respeitava a natureza. Cuidava dela. A árvore é sombra para um descanso, beleza e ajuda a gente a respirar mais e melhor, na poluição da minha amada cidade de São Paulo – Capital.
Entro na nossa casa. Visito com calma e cuidado todos os cômodos. Ela é grande e espaçosa. Tem uma temperatura agradável.
Um grande novelo – de linhas pretas, brancas e coloridas – vai se desalinhando no coração da saudade que me visita. Paro no quarto da minha mãe e do meu pai. Vazio dela, vazio dele. Preenchido de lembranças das nossas vidas inteiras.
Quanta história… Memórias, risos, lágrimas, abraços, broncas, brigas, gargalhadas, festas, músicas, danças, cantorias, comida boa da mamãe, morte do papai – vinte anos atrás, nesse mesmo quarto, cercado pela nossa grande família.
O cheiro da comida da minha mãe invade o quarto, anunciando que o almoço está pronto. Podemos nos sentarmos à mesa. Ela fez farofa de ovos com abobrinha. A minha preferida, desde menina. Devo ter sonhado de olhos abertos e em pé. Há quase seis anos mamãe não aguentou de saudades do papai e viajou para encontrá-lo. No último dia 03 de setembro de 2023, ela fez cem anos, na eternidade!
A vida é assim como a costura: às vezes a linha dá uns nós; a gente tenta desfazê-los e seguir em frente. Com mais ou menos cicatrizes.
As linhas costuradas e bordadas com afeto têm força, beleza e resistência. Estou aqui para continuar a costura iniciada pela minha ancestralidade. Quem veio antes riscou e desenhou os caminhos abertos para a minha geração, para as jovens gerações e aquelas que ainda virão.
Mamãe dizia que eu desenhei o enxoval inteiro de bebê da minha irmã Cristina, que é seis anos mais nova do que eu. Ela bordou todas as peças, enquanto esperava a sua bebê nascer. Infelizmente as peças raras se perderam com todas as inúmeras mudanças que fomos obrigados a fazer depois que meu pai foi à falência. Sigo fantasiando como seria poder rever uma dessas peças. Será que a mulher adulta que me tornei reconheceria os traços da menina que fui?






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