Rejane Stuntebeck

Mulher Preta, Educadora, filha, mãe, esposa,

Enfim eu…

A branquitude de toda a Europa colonizou o mundo: a América Latina, a África, parte da Ásia… podemos dizer que colonizaram o mundo. Para nós da América Latina, desde os anos de 1492, quiseram arrancar-nos a vida, a alma, a cultura, nossos costumes…

Tiraram-nos a língua, impuseram outra, arrancando nossa língua nativa, para assim nos deixar desnudos — “sem eira nem beira”, como dizia minha saudosa mãe, uma descendente dos povos Tremembés de Almofala, nascida em Salgado dos Pires, Itapipoca – CE.

O Império, em sua ascensão, não só tomou e roubou nossas terras, nossas vidas — nos sequestrou da África como pessoas escravizadas. E éramos pessoas livres, com fontes de sabedoria e conhecimento. Levaram-nos para a Europa, América Latina. Separaram-nos de nossas raízes, identidade, de nossos familiares. Fomos jogados num mundo o qual não conhecíamos…

Tudo isso em nome da ganância e do poder, para enriquecer seus cofres, fazendo do povo da África uma massa trabalhadora e escravizada. Escravizada por esta “elite branca do atraso”, como diz Jessé Souza, sociólogo.

A dor e o sofrimento da segregação — de sermos tirados a açoite da nossa terra ancestral e de não poder nos conectar com os nossos — foi atravessador. Foi muito mais que uma flexa lançada ao coração, atingiu a nossa alma. Pois o que nos faz gente é o que nos conecta: essa força que dinamiza nossa vida. E essa força está na nossa língua, no nosso idioma — através dele podemos passar adiante nossos conhecimentos, sabedoria, cultura, tradições…

Para nós, de África, a oralidade é muito importante. É com a oralidade que aprendemos com os e as mais velhas toda a fonte de sabedoria que é passada de geração em geração. Não só os conhecimentos formais, mas também as formas mais sublimes e eternas de afeto, de cura: as nossas rezas, nossas tradições culinárias, nossas danças, a beleza dos nossos artesanatos com cores vivas.

Enfim, escutando nossos ancestrais, recebemos a vida e a passamos adiante. Somos uma África viva.

Mas o que os opressores não pensaram era que a força da nossa ancestralidade nos fez resistir mais de 400 anos de escravidão — uma escravidão que continua. Conseguimos fugir e formar, em muitas partes do Brasil, os quilombos, que foram (e são) fontes de resistência para a nossa sobrevivência.

Foram vários os levantes de resistência, desde os povos originários até nós, os ancestrais da África. Como por exemplo:

  • A Revolta dos Malês, em 1835, em Salvador-BA. Uma das maiores rebeliões dos povos escravizados. Muitos deles eram muçulmanos, lutavam por liberdade religiosa e por uma vida em liberdade. Eram letrados, liam em árabe, dominavam a escrita.
  • A Revolta da Chibata, liderada por marinheiros negros da Marinha de Guerra do Brasil, contra a pena do açoite.
  • A Greve dos Queixadas (1962–1969), no Maranhão — uma greve dos trabalhadores negros por melhores condições de trabalho e vida.

A luta dos povos colonizados — os povos originários e o povo da África — não começou hoje. Desde o início desse processo de desalmar os seres e torná-los escravizados para adquirir ouro e outros metais, como também o café e a cana-de-açúcar, nós resistimos. Nunca ficamos calados e passivos. Por mais que tivéssemos mordaças, sempre fomos um povo que resistiu.

Eles chegaram às nossas terras com a cruz e a espada, diziam que não éramos seres humanos, que não tínhamos alma. Diziam que devíamos aceitar o catolicismo, o evangelho. Não nos respeitaram. Não aceitaram que os povos originários tinham suas próprias culturas, línguas, tradições, seus próprios deuses. Amavam — e ainda amam — o Sol, a Lua, as estrelas, a floresta. Somos um povo apaixonado pela Mãe Terra. Dela cuidamos e só tiramos o necessário para viver entre os nossos povos, nossas aldeias. Cuidamos veementemente da nossa mãe-terra com respeito, ouvindo seus gritos e clamores. Pois somos seus filhos. E os filhos escutam a mãe: a nossa mãe-terra.

O processo de escravidão continua. A lei assinada em 13 de maio de 1888 — esse pacto de abolição camuflada — foi apenas um acordo político para proteger a elite branca e silenciar o povo negro. Esta elite perversa não conseguia mais conter os levantes feitos por nós, povo negro forte de África. Resolveram então usar a arte do camaleão e camuflar com essa tal de lei — uma lei que nunca terminou de ser assinada. Uma lei ambígua e abstrata, feita pela Princesa Isabel para:

  • fortalecer a justiça criminal;
  • incentivar a imigração europeia;
  • garantir uma transição pacífica e controlada para um Estado livre — mas nos deixando sem terra, sem moradia e com fome.

O Brasil tinha cor. Era negro. As nossas tradições e tambores soavam forte. E eles queriam nos apagar. Daí a imigração — para gerar o “branqueamento”. Pensavam que, entre uma, duas, três décadas, o povo já estaria “clareado”.

Veio a famosa palmitagem: um processo de embranquecimento, a construção de uma imagem idealizada de raça e padrão de beleza desejado pela elite branca — gente de pele clara.

Ah, mas eles esqueceram que nossa melanina é forte. E parafraseando Lazzo Matumbi:
“Das senzalas, nós subimos à favela, pensando um dia descer… mas não descemos.”

Por lá fomos nos organizando, zanzando, zonzos, com fome, sem ter o que comer, sem nome, sem identidade, sem fotografia. O mundo nos olhava, mas não queria nos ver…

Esse dia 14 de maio — um dia depois do “pesado” — ninguém nos deu bola. Tivemos que ser bons de bola para sobreviver. E até hoje temos que estar marcando bola pesada no campo da sobrevivência. Não tínhamos lição, nem lugar na escola. Hoje estamos presentes, por meio da luta, através das cotas.

Eles esqueceram — e esquecem — que somos fortes. Que nossa alma não é pequena. Ela é de luta. Ela resiste e insiste, pois nosso corpo é de luta. Hoje, sabemos o que é bom. E o que é bom também deve ser do povo negro. Porque a coisa mais certa deve ser a coisa mais justa. E hoje sabemos quem somos: somos juntos, em coletivo.

Eu só sou porque nós somos.

Será que vocês — a branquitude — esqueceram ou nunca entenderam a mensagem? Que bom ouvir Lazzo Matumbi cantar com tanto entusiasmo, não nos deixando esmorecer, fortalecendo sempre a nossa memória.

Estamos fortes e organizados: nos Movimentos Negros, na escrita das nossas Escrevivências, como diz nossa linda Conceição Evaristo, no Hip Hop, nas danças, na poesia, no samba, na capoeira. Somos fontes de saber nas universidades. Fortalecemos-nos com a força ancestral de Nego Bispo, que nos diz com tanta clareza e simplicidade que fazemos parte desta gira. E que não estamos isolados dos outros seres da terra — somos como um rio… temos que estar confluindo.

Assim também diz Ailton Krenak: respeitemos a Terra.

Krenak, Conceição Evaristo, Nego Bispo (em memória), não nos deixam esquecer que nossa maior sabedoria está nos nossos Ancestrais.

Por isso, amamos os terreiros, os quintais medicinais e de afeto, os chás, os cafunés, as rodas de conversa, o aconchego dos mais velhos e mais velhas. Assim vamos seguindo, sendo urgentes e insurgentes, desafiando os que nos apagam, pois somos fortalecidos com as forças das mulheres, mães, filhas e meninas, que emanam a força do Axé, através dos Orixás.

E nós continuamos na luta.

Porque essa escravidão é colonização continuada. Foi uma lei assinada, mas nunca válida. E nós seguimos nos guetos e favelas — os quilombos vivos de hoje — de resistência, de vida, de florescer, e de esperançar nossa ancestralidade.

Epahey, minha Mãe .

O Império está decaindo.
E nós — re-existindo.

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