Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.

Coluna: Alinhavando Ideias

Para quem gosta de ler minhas escritas, agradeço o tempo dedicado aos meus textos. Sei o valor de tomar tempo e refletir.

Filha de Dona Hildete, para alguns Dona Nazinha, comecei meu aprendizado com agulha e linha, fazendo alinhavos. Muito antes, aprendi a limpar as costuras e, depois, a alinhavar. Não sei dizer quantas horas da minha vida passei com agulhas e linhas, preparando a roupa, fazendo os alinhavos para que, depois, as mãos e olhos experientes de mainha levassem a costura para a máquina. E, no meio disso, tinham as provas. O bom alinhavo era tão valioso quanto a costura. Um bom alinhavo aguentava os movimentos da clientela sem partir nem desmerecer o trabalho. Alinhavos grandes, pequenos, de uma ou de duas linhas — todos tinham suas funções e tamanhos. Tinha orgulho de ver um alinhavo resistir à primeira prova.

Essa aprendizagem de linha e agulha levo nas minhas vivências. E quando um trabalho é muito difícil, quando quero terminar logo, lembro que, antes do brilho da costura no baile, a roupa tinha que passar pelos alinhavos. Pontos pequenos ou grandes, com linhas dobradas ou não — de qualquer maneira, era o trabalho importante a caminho do resultado, dos olhos exigentes e dos clientes que pagam.

Durante esse trabalho, tivemos sempre vivências auditivas. Não eram simplesmente músicas, como digo — eram vivências auditivas que acompanhavam nossos alinhavos e costuras.

Nesse dia de sol, lembrei desse processo. Sei que meus textos são como alinhavos — só quem sabe o valor do alinhavo poderá também compreender minhas ideias e palavras, que traduzem meus ideais. Para mim, é suficiente.

A partir de hoje, estarei alinhavando ideias e Experivivências.

Sons, identidades e resistências

A mulher faz o músico parar de tocar no meio de sua performance para declarar que esse tipo de música não é boa — porque remete à África. Declara ser alguém que acredita em Cristo.

Exatamente na véspera da comemoração do Dia da África, lá estávamos nós, tocando “samba-reggae” numa cidade onde muitas pessoas emigraram para a Alemanha em busca de uma chance de ter direitos — por ser um país democrático, onde possam exercer suas religiões, onde tenham acesso à cidadania, estudo, trabalho, família e respeito.

Pessoas migrantizadas, que vêm de regiões da antiga “Etiópia Oriental” — como era chamado o continente que hoje conhecemos por África — são justamente aquelas que recebem pouca chance de representação. Aqui, como em todas as nações colonialistas, essas pessoas lutam todos os dias e, muitas vezes, acabam optando por viver na invisibilidade: silenciadas, silenciosos.

Nós, corpos diasporizados, que sentimos a presença de nossas origens através das ausências, precisamos, de vez em quando, dessas vibrações. Das músicas e dos ritmos.

Há muito se sabe que a música é uma linguagem universal. Experiências auditivas podem romper fronteiras. E quando as pessoas não estão presas aos seus preconceitos, conseguem vibrar, identificar-se, gostar — ou não — de um ritmo. Pode ser simplesmente uma questão de gosto, ou uma identificação que nem sempre se explica por meio da biografia de uma única geração. Nem sempre o lugar onde a pessoa nasceu define seus gostos e escolhas. Ao mesmo tempo, há linguagens, sons e vibrações que nos emocionam e ultrapassam nossa origem, remetendo-nos a vivências inexplicáveis.

Assim, sentindo e vibrando com o som de tambores enormes, tocando ritmos que surgiram em Salvador, me encontro, no dia 24 de maio, em meio a um festival em uma cidade da Alemanha — Ingelheim, no estado da Renânia-Palatinado, cuja capital é Mainz, onde nasceu Johannes Gutenberg (só para situar). Uma cidade com boa economia, por conta da indústria farmacêutica. Uma cidade que dá emprego a pessoas do mundo todo — embora nem todas sejam tratadas da mesma forma. Nem todos os que lá trabalham são aceitos como cidadãos, mesmo pagando impostos, mesmo sustentando a economia.

É uma cidade internacional, pois de lá é possível viajar para qualquer lugar do mundo. Viajar e desfrutar de privilégios, quando se tem passaportes europeus. Privilégios como frequentar escolas por anos, ter uma formação que garanta cidadania, ou não precisar sentir medo de andar nas ruas e sofrer agressões verbais, por exemplo.

Esses privilégios e esse acesso à chamada educação de qualidade, no entanto, não garantem que essas pessoas compreendam que não são donas da verdade, do saber, nem que sua crença — perpetuada por religiões que se definem como escolhidas — justifique a intolerância. São pessoas que se dizem cristãs, mas que só enxergam o monoteísmo. Ou melhor: o moneyteísmo.Uma crença que não garante o respeito mútuo. Seus privilégios e oportunidades não respeitam o direito de existirem outros.

Pessoas que entendem sua fé apenas pela demonização do outro me parecem fracas, agressivas. Inseguras diante de melodias e vibrações que não remetem à erudição europeia — e por isso atacam, assediam.

Quanto mais me descolonizo, mais compreendo como é importante ser feliz. Não posso mais compactuar com castigos e sofrimentos como base da educação. Não consigo mais cultuar a Terra como um lugar de provações. Não posso mais viver à espera de classismos para que minha existência seja validada pela exclusão dos outros.

Viver e não ter a vergonha de ser feliz! Como disse Gonzaguinha, isso é muito importante. E, quando alguém se incomoda apenas por perceber que estamos felizes, cantando, tocando, soando — isso quer dizer que estamos certos. Que estamos cumprindo nossa missão aqui no Aiyê. Porque a alegria é vibração — assim como a tristeza.

Sei que essa não foi a última vez em que seremos confrontados por esse tipo de intolerância. Mas sei também que não vamos parar de ocupar esses espaços. Até porque, na verdade, a maioria também só quer ser feliz. E poder conhecer músicas, ritmos, ter a chance de aprender e vibrar com melodias é também uma das formas de exercitar a felicidade.

Ana Graça, em Junho de 2025.

Foto: uma cortesia da artista plástica e pedagoga Aqueline Santana Sieg

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