
Betânia Ramos Schröder – nascida no Recife, Pernambuco, é uma autora, socióloga e ativista brasileira. Ela se dedica a temas como migração, antirracismo, decolonialidade e à crítica das estruturas de poder globais. Seu trabalho transita entre a literatura e a reflexão política. Foi colunista da revista Carta Capital, onde publicava regularmente textos de opinião e análises. Atualmente, colabora com o blog Vozes da Diáspora e com a revista alemã iz3w.
Ela idealizou e organizou o livro O Legado de Marielle Franco e as Mulheres Afrobrasileiras em Frankfurt e Mainz, que trata do legado político de Marielle Franco e das experiências de mulheres afro-brasileiras na Alemanha. A obra reúne textos de diversas autoras, colocando suas perspectivas em destaque.
Seus escritos também foram apresentados na performance Corpus d’Água, de Bárbara Luci Carvalho. Em seu texto O Caminho da Água, ela explora a metáfora da água no contexto das experiências afrodiaspóricas. Esse texto foi apresentado no Storytelling-Salon de 2022 da Iniciativa de Pessoas Negras na Alemanha (ISD).
Sua obra é marcada por influências culturais diversas e experiências internacionais. Betânia aborda criticamente as estruturas de poder globais, questiona as continuidades coloniais e reflete, em seus textos, tanto sobre o desenvolvimento pessoal quanto sobre os processos sociais mais amplos.
Entre fogueiras, memórias e justiça
Semana passada, conversava com Meri, minha irmã, que com muito carinho disse:
“Bé, chegou a época do ano que tu mais gostas, né? O São João!” Uma época das águas, do fogo, da fé, da força do trovão!!
O lugar da memória é esse lar-refúgio na busca do possível inatingível, mas aparentemente vivo! Um porto seguro imaginário mediante o desconhecido dos desafios do nosso tempo.
Vivemos um momento desafiador aqui na Alemanha. Nos rodeiam silenciamentos políticos para quem não se submete a uma ordem social imposta, ódio racial que se entranha na vida cotidiana, insegurança social e econômica, crises forjadas e outras que sempre estiveram debaixo do tapete histórico deste país.
Pensar no São João é um alento. Mesmo com quase 25 anos de vida fora do Brasil — a maioria sem celebrar essa festa —, foi lindo conversar com Meri sobre minha celebração preferida. Impressionava perceber como tanta coisa mudou: a proibição das fogueiras, balões, fogos de artifício por razões ambientais (com toda legitimidade), o fim dos palhoções feitos de madeira, palha de coco e lona, trocados por grandes concertos no centro da cidade. O fim da vida comunitária em detrimento da indústria dos grandes shows.
Era uma festa coletiva especial e muito local. Os afetos partilhados entre a família e vizinhança em forma de comida, forró no rádio. Enfeitávamos a rua 47 com bandeirinhas, íamos pra mata pegar madeira, dividíamos a fogueira e o milho. O milho que tanto amo — Vô Luiz, pai da minha vizinh Aleir, dizia que eu gostava tanto que até milho seco eu comia. Era verdade.
Lembrei que tivemos até palhoça na rua, onde nos acotovelávamos pra ver as quadrilhas famosas do bairro que vez por outra nos visitavam. Dançávamos forró, improvisávamos nossa própria quadrilha. A memória é um lugar de cheiros, sabores, atmosferas e movimentos.
Junho. Frankfurt.
Mergulho nas memórias afetivas do nosso tempo nordestino, das semanas de chuva, dos alagamentos — das cheias. Lembranças atravessadas pelo racismo ambiental que marcou a trajetória da minha família. Em 1975, o ano em que nasci, minha família perdeu tudo. Saiu do Recife, do seio da família, e se deslocou de Vovô Joventino em Campo Grande rumo à cidade de Paulista, a 15 km da capital.
Essas imagens, quase esquecidas, enevoadas pelo tempo, se revelam em mim, impulsionadas pelos parcos recursos que me alimentam a trazê-las . Nas redes sociais, me reconecto com meu território: música, cenas do povo dançando forró, shows, chuva e mais chuva, alagamentos, comidas de milho, festa de Santo Antônio…
Mas é o prenúncio das celebrações a Xangô em Pernambuco— o grande Orixá, patrono do Candomblé de Pernambuco — que faz meu coração arder. O Orixá amado. Protetor. Rei da justiça, do fogo, do trovão.
Mesmo daqui, celebro pela tela do celular: preparativos, limpezas, convites para Amalás nos grupos de Whatsapp que aparecem, imagens partilhadas de oferendas e festas nos Ilês. O silêncio do respeito se espalha.
Arrepio ancestral. Solitário, porém incontestavelmente vivo em mim.
Refleti sobre meu sincretismo religioso, herança colonial e dos afetos que conquistei. Minha devoção intuitiva a Santo Antônio, quando me pego de súbito mergulhada em rezas. A Igreja Católica me acolheu na adolescência, me deu abrigo, alimentou minhas convicções políticas, meu ecumenismo, meu encantamento com o fenômeno da fé.
È na força da natureza, no seu poder, que me sustento. Aprendo acender fogueiras, para sentir o calor do fogo queimar, ouvir as vozes e clamores por justiça do meu povo. Dos trovões das tempestades juninos me vejo um estrondo, um impulso de vida que busco com a minha escrita, no canto das horas, para me revelar com mais coragem em presença no mundo. Aprendo a ouvir e gerar…
Nossa espiritualidade está entrelaçada com nossos territórios. Somos povos que biointeragem, como Nêgo Bispo nos ensinou. Escutamos os sons das matas, curamos e limpamos nossas dores nas folhas…
Daqui da Europa, ouço e “bebo tempestades”, e seus raios e trovões no bom conselho de Chico Buarque. Este verão úmido, com dias de chuva torrencial, tem afastado a seca da primavera, o medo da aridez, da ameaça da colheira no outono. Em junho, sentimos a força da luz do dia no seu auge. Na Alemanha, o solstício de verão — Sommersonnenwende — marca os dias mais longos do ano, celebrados timidamente com fogueiras, danças e rituais antigos de saudação ao sol. Em algumas regiões, ainda se colhem ervas e se pula a fogueira, em festas que da colonialidade do poder sobre a cultura se mesclam nas tradições ancestrais e cristãs, como as de São João.
As chuvas e trovoadas soberanas, que atravessam as brechas intensas do sol escaldante dos dias de verão, as fogueiras dos Solstícios e os festejos de São João nos lembram: não se deve baixar o Oxé — o grande machado que carrega toda a força do Orixá Xangô. Ele nos prepara, nos mantém vigilantes com a vida na terra, na sua proteção, nos momentos de injustiça, especialmente diante do aumento da violência policial, que já protagoniza episódios inimagináveis para uma força que, historicamente, tentou se apresentar como cidadã — numa estratégia de ressignificar seu papel após o período do Nazismo. Levantar o Oxé é a punição do juízo que se faz contra as mortes genocidas contra o povo da Palestina, Congo, no Sudão e todos os territórios em guerra e a sua gente (“um corpo, uma vida…”, Grada Kilomba”.), vitimada pelas armas do ódio e do domínio.
Hoje, vemos crescer aqui na Alemanha a truculência nas abordagens da polícia, as mortes sob custódia, e o avanço de uma cultura de proteção de um mundo, de um povo, de uma estrutura conquistada, que se confronta com um forte imaginário de ruína diante de tantas crises. E nós, estrangeiros, não escapamos do olhar que insiste em nos enxergar como ameaça. Mas não nos calamos. Nos organizamos e defendemos o lugar que nos pertence, assim como o projeto democrático que acreditamos.
Quando estive no Brasil este ano, os búzios disseram: não era tempo de voltar a viver no Brasil. Voltei contrariada para a Alemanha. Dias depois, recebi o convite de Barbara Luci Carvalho para uma segunda performance Corpus D’Água na sede da prefeitura da cidade de Frankfurt. Dela nasceu meu primeiro texto em alemão publicado numa plataforma de textos literários chamada Textor, onde somos apenas três autores negres. Wir sind wasser(“nós somos as águas” — é um texto orgânico, poético, insubmisso e urgente, sobre migração, refúgio e a força das mulheres afrodiaspóricas em movimento. Hoje já são três artigos publicados.
Em maio, escrevi um poema sobre Lorenz A., jovem negro executado pela polícia em Oldenburg. Mergulhei nas injustiças do territorio onde vivo. Pensei na dor de uma família que perde um filho, um sobrinho, um neto, um jovem de 21 anos. A memória de Xangô me moveu em escrita, fez o texto nascer durante um encontro no “Centro”, em Rödelheim, onde estávamos reunidos , enlutades, para partilhar nossos medos, nossas angústias em meio ao aumento da violência policial na Alemanha. A palavra veio como resposta e como invocação.
O Oxé de Xangô estava no poema — o machado que carrega a força dos raios, das fogueiras e a intolerância contra as injustiças. Um desafio cotidiano na tomada da responsabilidade ética e discursiva, que de pronto me inspira tomar a escrita na língua alemã e seguir em português, como modo de expressão, com todos os limites da minha fala e escrita “estrangeira”. entre dois mundos.
Tem sido difícil construir um propósito de permanência na Alemanha nesse momento. Mas sei que é na cultura da memória, nas construções coletivas e na reinvenção das vivências que encontro ferramentas para esse caminho que escolhi na encruzilhada.
Aqui no meu lar estrangeiro, o mês de junho é silêncio de festas da minha terra. Mas o coração é estrondoso como os trovões, como os estalos das grandes fogueiras me acordam, me atravessam, me desafiam, mesmo nessa distância afroatlântica quase infinita. Recebo em mim a memória dos ritos, do Axé, das presenças de Xangô em terra que testemunhei.
Força que vem da minha africanidade pernambucana. Adubo em terra que acolhe. Vivo tudo isso aqui, onde minhas raízes já penetram o chão há 25 anos.
Um chão que não negarei ser meu, das memórias e ancestralidades que me acompanham.
Link do Textor Kultur:
https://textor.online/de/autoren-detailseite/585_betania_ramos-schroeder/ : Entre fogueiras, memórias e justiça / Por Betânia Ramos Schröder





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