
Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.
Hoje é o 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Para mim, como mulher diaspórica e migrantizada, é importante registrar histórias que só agora começam a ser escritas. Histórias vividas e apagadas ao longo dos anos pelo colonialismo e pelo patriarcado. Mulheres negras sobreviveram na diáspora apesar de todas as atrocidades impostas por sistemas que não nos incluem, e por isso conhecem de forma natural o que é resiliência e resistência. O trágico dessa história é perceber que estamos sempre tão ocupadas em resistir que, muitas vezes, esquecemos que também temos o direito de viver sendo felizes.
Participei recentemente de um encontro em Berlim chamado “Dekolonize trotzdem alledem – Descolonização apesar de tudo”, realizado entre os dias 4 e 6 de julho. Ativistas de toda a Alemanha, afrodescendentes e pessoas que também acreditam na democracia se reuniram para falar sobre o futuro. Discutimos muitos tópicos importantes, mas percebo, como em tantos outros encontros, que o direito à felicidade continua ficando de lado. Isso porque ainda hoje estamos mais preocupados em não morrer, não sofrer, não passar por agressões resultantes de discriminações e de uma política que reforça comportamentos para garantir privilégios a uma minoria.
Com muito orgulho posso dizer que as lutas têm valido a pena. Entre algumas conquistas, os movimentos antirracistas conseguiram, por exemplo, mudar nomes de ruas que remetiam ao colonialismo, substituindo-os por nomes de pessoas negras que estiveram presentes nesta nação desde o século XIX e que contribuíram para sua história.
A Europa não vive sem as mãos dos imigrantes. A Alemanha, assim como outros países europeus, mantém sua economia graças ao Sul Global, que é constantemente narrado como “menos desenvolvido” para justificar a continuidade dessa exploração colonial. Quando falo em exploração penso em todos os seres, porque na minha vida os seres vegetais e animais se completam e dependem uns dos outros. Diferente do que se ensina nas escolas, como se a natureza existisse apenas para ser extorquida. Para nos descolonizarmos no futuro, precisaremos olhar para trás, como faz o Sankofa.
O dia 25 de julho também é lembrado por marcar o projeto eugenista de embranquecimento do Brasil. Em 1824 o país trouxe imigrantes europeus com o objetivo de continuar destruindo culturas indígenas, devastando territórios e garantindo a morte de negros, tomando-lhes todos os direitos à cidadania, à posse de terras e ao acesso à educação e à saúde. É uma história comum a todos os países colonizados.
Esse processo migratório, que garantiu privilégios aos descendentes de europeus, continua se refletindo até hoje. Os europeus que chegam ao Brasil atualmente já não recebem terras e crédito como no passado, mas ainda assim continuam recebendo privilégios. Conseguem os melhores empregos e, ao contrário das pessoas que vêm da África ou do Caribe, são recebidos no país. Ser recebido é um privilégio quando, na verdade, deveria ser um direito. A migração é um processo natural e não apenas humano. Todo ser em movimento busca o Bem Viver. Para quem procura uma explicação monoteísta, basta lembrar de um dos livros mais importantes da Bíblia: o Êxodo, um dos alicerces do monoteísmo cristão, exemplo de um povo que saiu em busca do Bem Viver e que até hoje se encontra em diferentes partes do mundo
Muitas vezes me pergunto se os princípios do cristianismo foram mesmo compreendidos. Na minha fé, fortalecida pelas filosofias dos terreiros, o respeito mútuo é a base de toda vida comunitária. É por meio das outras pessoas que conhecemos outras histórias. Por isso devemos nos mover e seguir sempre, porque o movimento é aprendizagem.
Duzentos anos se passaram desde aquele projeto de embranquecimento do Brasil. Mas nós somos o Brasil. Nós somos os Brasis. Somos os povos que respeitam a terra e as espiritualidades. Precisamos continuar seguindo nossos rumos e nossas crenças para que este planeta tenha alguma chance de não se desintegrar por causa das ambições sociopatas de alguns milionários. A miséria e as guerras que forçam milhões de pessoas a abandonar suas famílias são a maior prova de que nossa sociedade precisa mudar. Precisamos parar de acreditar que o sucesso é algo conquistado sozinho e que o consumo desenfreado é algo natural aos seres humanos.
A narrativa eurocêntrica continua propagando que está buscando um caminho para nos ajudar, para que nos desenvolvamos e cumpramos todos os “deveres de casa” para termos o direito de sermos vistos como cidadãos. Ando nessas ruas de uma cidade limpa, mas vejo que as mãos que limpam escolas, prédios, escritórios, hospitais e ruas são as mãos migrantizadas e marginalizadas nos discursos de ódio de uma sociedade que se sente no direito de emigrar para qualquer lugar do mundo para ocupar cargos de chefia.
Neste mês de julho tenho muito a agradecer aos movimentos feministas do Brasil. Agradeço às mulheres negras que não desistiram de continuar sua caminhada. Agradeço pelo Julho das Pretas e por duas grandes mulheres afro-caribenhas que me inspiram na minha jornada: Lélia Gonzalez, que trouxe para o Brasil uma reflexão fundamental sobre a intersecção entre raça, gênero e classe, e minha mãe, Dona Hildete, nascida em 19 de julho, que talvez nunca tenha se reconhecido no feminismo, mas cujas práticas de resistência e cuidado também fazem parte dessa história.
Para elas e para todas as mulheres que, em diferentes caminhos e mundos, constroem cidadania e Bem Viver, deixo meu desejo: que nunca desistam de ser felizes.
Foto-Arte: uma cortesia da artista plástica e pedagoga Aqueline Santana Sieg






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