
Betânia Ramos Schröder – nascida no Recife, Pernambuco, é uma autora, socióloga e ativista brasileira. Ela se dedica a temas como migração, antirracismo, decolonialidade e à crítica das estruturas de poder globais. Seu trabalho transita entre a literatura e a reflexão política. Foi colunista da revista Carta Capital, onde publicava regularmente textos de opinião e análises. Atualmente, colabora com o blog Vozes da Diáspora e com a revista alemã iz3w.
Este texto nasce de uma reflexão pessoal e política sobre o lugar da escrita na minha trajetória como mulher negra migrante, e sobre a força dos movimentos literários negros e indígenas que atravessam o Brasil e se reconfiguram na Alemanha. Ele é também um gesto de reconhecimento ao nomear vozes de pessoas negras que vieram antes de mim e às que seguem ao meu lado, construindo presença e criação literária do outro lado do Atlântico. Vozes que permanecem em trânsito, como inspiração e como experiência concreta de raíz afro-diaspórica.
Fui convidada pela artista e diretora Bárbara Luci Carvalho para participar, no próximo dia 2 de agosto, do Sarau Literário na programação do Porto Brasil do Festival Internacional Sommerwerft em Frankfurt. Estarei junto com as escritoras, multiartistas, tradutoras e cantora Maria Mazarelo, Terezinha Malaquias, Rita Rios, Lilian dos Santos e uma das nossas cantoras mais queridas, Tina Freitas. O Sommerwerft é um festival internacional teatral e multicultural, realizado à beira do rio Main, com entrada gratuita.
Bárbara, que integra o Antagon Theater e é produtora no protagon e.V. – organizador do Sommerwerft – entrelaça literatura, performance e ancestralidade em seu trabalho. Ela estabelece uma ponte viva entre o espaço do Antagon, do Internationale Frauen Theater Fest e muitas mulheres* afro-brasileiras na Alemanha. Foi ela quem me convocou para escrever um texto na dramaturgia da última performance “Corpus d’Água”, da qual também nasceu um poema. Esse convite me impulsionou a fortalecer a ideia de escrever, especialmente neste mês de julho – mês que celebramos a memória das lutas das mulheres latino-americanas com o 25 de Julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
O sarau me leva a refletir sobre o meu caminho e o de tantas mulheres negras brasileiras que, na Alemanha, têm feito da literatura um abrigo, um lugar de reinvenção, movimento entre mundos e fronteiras. Nos dias de hoje, falar sobre negritude, especialmente na atual conjuntura da Alemanha, tem sido marcado pelo uso político e pejorativo do rótulo de “identidade”, como se, no nosso caso enquanto pessoas negras, a identidade fosse algo particular, desvinculado do coletivo, negando a dimensão histórica e política de uma expressão que carrega em seu nome a violência da racialização no sistema colonial, e se transforma em reexistência de quem se levanta contra as opressões. Por isso, escrevo a partir de uma identidade política herdada de quem abriu caminhos para ocuparmos os espaços que hoje nos cabem, construído por nossas mãos negras em solidariedade, inclusive na literatura.
Durante séculos, a escrita foi usada como instrumento de exclusão racial e epistemológica para pessoas negras e indígenas . No Brasil, esse apagamento persiste: só em 2025, uma mulher negra , Ana Maria Gonçalves, ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ainda assim, nossa presença vem se consolidando à medida em que a trajetória dos negros na literatura se caracteriza com ruptura com a normatividade da língua de Camões.
A literatura negra brasileira tem, raízes profundas: Maria Firmina dos Reis no século XIX; os jornais da imprensa negra, como “O Clarim da Alvorada”; e, a partir dos anos 1970, a série “Cadernos Negros” do grupo Quilombhoje, que revelou autoras como Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves e Conceição Evaristo. Ícones que desafiaram estruturas rígidas do cânone literário ao trazer as escrevivências na prosa e poesia desde as entranhas do cotidiano da exclusão da população negra no Brasil. Sobretudo, uma tendência que ascende outras linguagens em torno da palavra ao evocar a grandiosidade poética do samba, as toadas tradicionais nos ritos afro-brasileiros, as cantigas da capoeira, e as demais múltiplas linguagens com que narramos nossas histórias e damos forma ao nosso imaginário coletivo .
Em 1988, a coletânea bilíngue “Schwarze Poesie, Schwarze Prosa” foi publicada na Alemanha pela editora Diá, sob coordenação de Moema Parente Augel. Reuniu textos de Evaristo, Cuti, Oswaldo de Camargo e outros nomes da literatura afro-brasileira. Foi uma das primeiras publicações afrodiaspóricas bilíngues no país.
Carolina Maria de Jesus, que terá sua obra encenada no Sommerwerft, também teve parte de sua obra traduzida na Alemanha. “Quarto de Despejo” foi publicado pela Fischer em 1984 como “Tagebuch der Armut”; “Casa de Alvenaria” como “Das Haus aus Stein”.
Em 1992, o livro “Basta! Frauen gegen Kolonialismus” deu visibilidade a vozes indígenas e negras das Américas, incluindo textos de Sueli Carneiro e Inaldete Pinheiro. Foi um marco para o feminismo negro transnacional.
Na Alemanha, nós, mulheres negras migrantes, estamos fortalecendo nossos próprios espaços no campo das artes e da literatura.Quer nas publicações dos que pavimentaram nossa estrada editorial, quer nas festas onde ecoam os sambas do nosso coração e inspiram a escrita e a alegria, nos blogs como os nosso Vozes da Diáspora, em redes sociais que nos possibilita o dialogo com o Brasil, saraus ou performances, temos feito da palavra um instrumento de presença. Essa trajetória dialoga com movimentos anteriores, como o impulsionado por Audre Lorde nos anos 1980, quando apoiou autoras afro-alemãs como May Ayim e Katharina Oguntoye. O livro “Farbe Bekennen” (1986) é um dos frutos desse legado. Hoje, nomes como Hadija Haruna-Oelker, Natasha A. Kelly, Sharon Dodua Otoo e Miriam Mahn ampliam o espaço das mulheres negras na literatura contemporânea.
O Sarau Literário do Porto Brasil é um impulso para a continuidade a esse movimento que se amplia à cada experiencia de sororidade possível no seio da diaspora brasileira. Há dois anos, tive a alegria de mediar o lançamento de “Banzo e Afetos”, de Terezinha Malaquias, com a participação da educadora Rejane Pereira Stutenbeck. Terezinha, com mais de dez títulos publicados, é referência na literatura afro-brasileira na Alemanha. Seu trabalho atravessa poesia, prosa e literatura infantojuvenil.
Outras iniciativas ampliam de forma contínua esse campo: a editora FAFALAG, de Fátima Nascimento, linda iniciativa que me arrisco afirmar ser a primeira editora fundada por uma mulher negra brasileira na Alemanha; a agência LiT, de Andrea Amthor, com seu pioneirismo no agenciamento de literatura infanto-juvenil brasileira. Entre tantas escritoras destaco três muito queridos o Alexandre Ribeiro, Fábio Kerouac e Ras Adauto que também contribuem com narrativas que colocam a experiência negra, periférica insubmissa e futurista no centro da criação literária.
Destaco nesse contexto o trabalho de Bárbara Santos, dramaturga e diretora brasileira radicada na Alemanha, que reformulou a metodologia de Augusto Boal a partir de uma perspectiva feminista e antirracista, criando o Teatro das Oprimidas. Sua obra Teatro das Oprimidas – Estéticas feministas para poéticas políticas nos revela a grandiosidade de uma prática artística profundamente coletiva, crítica e transformadora. Através do espaço KURINGA, em Berlim, e da rede Ma(g)dalena Internacional, Bárbara conecta mulheres de diferentes territórios em torno de um teatro que escuta, denuncia e reinventa possibilidades de existência.
A edição alemã de “Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro, traduzida por Inajá Correia Wittkoviski, e editada por Ana Graça Correia Wittkoviski e Nana Djamila Adamou, é exemplo de como os feminismos negros têm atravessado fronteiras. A coleção Feminismos Plurais, criada por Djamila, foi pioneira por ser exclusivamente permeada por publicações de intelectuais e pensadores negres brasileires.
A obra‑testemunho Áurea, escrita a quatro mãos por Áurea Pereira Steberl e Paula Macedo Weiß, publicada em 2023 pela editora Folhas de Relva, é uma poderosa narrativa de reexistência. Narra a trajetória de uma mulher mineira que superou miséria, racismo e misoginia para afirmar a dignidade para si e para sua filha. Com cronologia sensível e coragem poética, as autoras dialogam e partilham uma história que transcende o individual e ecoa no coletivo. Tive a honra de realizar a leitura sensível e escrever a orelha desta obra que celebra a vida na adversidade e a potência ancestral dos corpos negros em movimento entre fronteiras.
Em Berlim, “A Livraria”, do pernambucano Edney Meireles, abriga o maior acervo de autoras e autores negres do Brasil na Alemanha, tendo sediado em 2024 o Festival Literário Zumbi Internacional, organizado pela Produtora Akilombe-se do amigo Tony Santos. Em Frankfurt, a Teo Ferrer Buchhandlung tem se consolidado como um importante espaço de literatura lusófona, promovendo a integração da literatura ao redor do universo da língua portuguesa. Já contamos também com uma agência literária voltada para a promoção da literatura infantojuvenil, como a distribuidora Livros for Kids, entre outras iniciativas protagonizadas por pessoas negras que promovem a literatura como um todo.
Os clubes de leitura se tornaram um movimento, um termômetro da entrada da literatura no nosso cotidiano, especialmente no pós-pandemia da Covid-19. O “LêDivas!”, da organização Imbradiva, aqui em Frankfurt, fomentou a leitura de autoras negras e interseccionais e apoiou a publicação do livro “O legado de Marielle Franco e as mulheres afro-brasileiras em Frankfurt e Mainz”. A Imbradiva também apoia novamente a encenação do “Diário de Bitita”, de Carolina Maria de Jesus, no Sommerwerft, com atuação de Andréia Ribeiro.
Todos estes retratos são também uma forma de dizer como eu, Betânia Ramos Schröder, dentro do universo em que me encontro, percebo as movimentações em torno da literatura de um país que, depois de 25 anos, decidi provisoriamente chamar de casa. Pessoas repletas de energia, no seio de um país inseguro diante de corpos migrantes, insubmissos, mas presentes, ativos. Pois nossos corpos e nossas palavras são encantadas pelo movimento, pelo poder de realizar que nos alumia a ancestralidade afro-brasileira.
Como escreveu Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar. Mas a gente combinamos de não morrer”. Escrevemos. Traduzimos. Lemos. Criamos laços. Seguimos entre livros, vozes, fronteiras e palavras que ainda estão por vir.






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