
Betânia Ramos Schröder – nascida no Recife, Pernambuco, é uma autora, socióloga e ativista brasileira. Ela se dedica a temas como migração, antirracismo, decolonialidade e à crítica das estruturas de poder globais. Seu trabalho transita entre a literatura e a reflexão política. Foi colunista da revista Carta Capital, onde publicava regularmente textos de opinião e análises. Atualmente, colabora com o blog Vozes da Diáspora e com a revista alemã iz3w.
Nelson Dil de Sousa Bulica tinha apenas 15 anos. Adolescente negro, filho de uma família africana lusófona, teve a vida interrompida em 1º de agosto de 2025, dentro de uma cela da prisão juvenil em Ottweiler, no Saarland. A versão oficial fala em suicídio, mas as vozes que conviveram com ele contam outra história: colegas relatam que foi espancado por agentes pouco antes de morrer. A violência não terminou ali. Mesmo após a morte, o Estado continuou a negá-lo: seu corpo foi cremado sem que a família fosse avisada, sem perícia independente, sem direito ao luto. Assim, Nelson foi arrancado duas vezes — primeiro pela brutalidade física, depois pela violência institucional que apaga memórias, silencia famílias e priva uma comunidade de chorar seus mortos.
Quatro anos mais velho que meu filho Antônio, Nelson poderia estar sentado numa sala de aula nos andares superiores da escola do meu filho, poderia trocar assuntos de videogame no pátio, encontrá-lo numa festa da cidade. Pensar nisso me faz reconhecer, pela dor, camadas que me desafiam a olhar Nelson em mim e escrever estas linhas. Olhar bem fundo e ver os grandes povos ancestrais que atravessaram nossas origens, a herança colonial, no presente, o deslocamento imigrante e nossos nomes impostos em listas letais.
Nelson soma-se a uma trágica lista de mortes de pessoas negras sob custódia do Estado alemão: Oury Jalloh, queimado vivo em Dessau (2005); Ferhat Mayouf, morto em Berlim (2020); Rasmane Koala (2014); Mouhamed Dramé (2022); e Lorenz A., assassinado em Oldenburg em 2025. A campanha Death in Custody documentou 266 mortes de pessoas racializadas entre 1990 e 2024 — nenhuma plenamente esclarecida e outras negadas evidencias.
Esses números não se comparam à violência do meu país de origem, o Brasil, mas revelam a face europeia da mesma lógica de desumanização. Na Alemanha, a criminalização de corpos negros, árabes, roma e sinti — corpos insurgentes em geral — expõe uma contradição: um país cuja Lei Fundamental proclama, no artigo 1º, que “a dignidade da pessoa humana é inviolável” priva, especialmente pessoas de ascendência migrante e racializadas, desse direito universal, com abusos, violência e, em casos extremos, mortes sob custódia.
A morte de Nelson evidencia o mal-estar do debate racial na Alemanha. Ela também se inscreve na presença negra e migrante, que, embora invisibilizada, nunca deixou de existir: filhos de mulheres alemãs com soldados afro-americanos, descendentes de africanos que viveram na antiga RDA como trabalhadores convidados, casamentos inter-raciais e, nas últimas décadas, fluxos migratórios vindos da África, do Caribe e da América Latina. Essa presença crescente foi acompanhada de disputas: de um lado, narrativas racistas que associam migração à violência; de outro, comunidades que constroem redes de solidariedade e clamam pertencimento à cidadania alema plena. Hoje, a população negra e migrante aumenta — e, com ela, a visibilidade das feridas abertas pelo racismo estrutural, já reconhecido oficialmente por este mesmo país.
Não é coincidência: foi em território alemão, durante a Conferência de Berlim (1884–85), que a África foi repartida como mercadoria entre potências europeias. Esse legado colonial e racista ressurge hoje nos redes de extremistas de direita dentro da estrutura das policias em vários estado, nas prisões arbitrárias, na truculência policia que mira especialmente jovens negros e de ascendência árabe.
Em 17 de agosto, cerca de 200 pessoas protestaram diante da prisão de Ottweiler. O grito coletivo era claro: “Justice for Nelson”. Não se tratava apenas de pedir explicações, mas de denunciar uma estrutura. Movimentos como o ISD e.V. (Initiative Schwarze Menschen in Deutschland), a campanha Death in Custody e a KOP exigem investigações independentes, responsabilização dos agentes, fim do racial profiling e políticas de proteção para jovens negros e migrantes.
Nelson não morreu sozinho. Morreu sob a custódia de um Estado. Mas também renasce simbolicamente cercado por jovens que se organizam, por comunidades que defendem cada vida, que proclamam os nomes de pessoas assassinadas pela polícia, num solo que exporta “civilidade” e direitos universais, mas falha continuamente diante de corpos negros expostos às agressões raciais cotidianas e às mortes sob custódia.
Se a morte de Nelson escancara a permanência da violência racial, também revela fissuras abertas pela resistência. Algumas cidades criaram departamentos de combate à discriminação; estados como Berlim e Renânia do Norte-Vestfália implementaram treinamentos antirracismo contínuos nas estruturas do Estado; e em 2021, uma Comissão de Especialistas em Racismo Estrutural, nomeada pelo Bundestag, reconheceu oficialmente que o racismo é enraizado nas instituições do país.
São avanços tímidos, muitas vezes contestados, mas que indicam disputas em curso. É urgente transformar recomendações em políticas nacionais, fortalecer os movimentos negros e, sobretudo, fazer valer o princípio constitucional da dignidade humana.
No dia 1º de setembro, as cinzas de Nelson foram enterradas em Saarbrücken. O funeral reuniu a dor da família e a solidariedade de uma comunidade enlutada, transformando a despedida em ato de memória e resistência. O corpo encontrou descanso, mas a ferida permanece… chamado à justiça, à memória e à mudança.






Deixe um comentário