É artista,  poeta, escritora e performer. Autora de nove livros de  poemas, contos, crônica e infantis.Mora na Alemanha desde 2008. Mais informações veja os links.Site: https://www.terezinhamalaquias.com
Canal no YouTube: https://www.youtube.com/user/TereMalaquias
Blog: http://www.terezinhamalaquias.blogspot.com/
Instagram: https://www.instagram.com/terezinhamalaquias/

Uma mulher adulta, de idade indefinida, sentou-se sobre uma grande pedra que estava em seu caminho.
Ela se lembrou da pré-adolescente que foi, da menina que carregava pedras para ajudar a família e, mais tarde, lavava pisos de pedras das mulheres mais endinheiradas, madames que pareciam acreditar ser, de algum modo, superiores.
Hoje pôde se sentar sobre uma pedra. Livremente, sem nenhuma preocupação.
Olhou para o infinito de si mesma. Quem passou e a viu, talvez tenha pensado que olhava para fora, sem perceber que o olhar era interno.

Sentou-se ali para descansar o coração e o corpo, depois de caminhar quarenta minutos a passos rápidos, com uma mochila pesada nas costas.
Na parte da frente, carregava uma mochila pequena com documentos pessoais, óculos de leitura e de sol, remédios para a alergia ao pólen e o hipotiroidismo, um livro, um caderno costurado à mão para as suas anotações, lápis e canetas de várias cores.

A mulher se deu de presente, naquele início de tarde, tempo.
Tempo para ela mesma pensar, refletir, sentir.
Fazer nada que não fosse ficar consigo mesma, sentada.
Sozinha, mas não só.

Da mochila grande, retirou uma garrafa de água.
Deu um gole generoso e demorado.
Era como se precisasse daquele momento entre ela e a água para pensar com a calma necessária – algo que vinha aprendendo nos últimos mais de trinta anos, com a meditação diária.
Abriu a garrafa d´água e levou-a à boca de lábios carnudos e bem definidos.
Tinha a beleza e a elegância natural que a maturidade dá a algumas pessoas, especialmente às mulheres.
O pensamento veio como magia ancestral assoprado pelo vento ligeiro, que disse:

“Fique aqui com você. Realinhe os seus pensamentos, o seu sentir.
Não viaje, fique.”

Naquele instante, decidiu que não seguiria a viagem. Voltaria para casa.

Antes de começar a caminhar de volta para casa, ela abriu um embornal de cor azul que carregava no ombro esquerdo.
Nele havia um pote com banana, maçã, iorgute de coco e chia.
Destampou-o sem pressa.
Comeu com alegria, agradecendo o alimento que havia preparado na noite anterior, para viajar.
Tinha também pães de queijo que fizera para levar à amiga que a hospedaria por uma noite, mas estavam congelados.

Sentiu-se muito feliz e um grande alívio por não ter tido medo de ouvir o que a intuição lhe dizia.
A decisão tomada fora a melhor.
A mais sábia.
Ela se deu o tempo como presente.
Parou e olhou para dentro de si.
Tempo para sentir a própria voz lhe dizendo baixo, com firmeza delicada:

“Fique, mulher.
Cuide de você, cuide do seu sentir, dos sentimentos, das sensações.
Não tenha medo do que vier.
Viva o que vier.
Sinta o seu sentir.

Se lágrimas nascerem nos seus olhos e percorrerem o seu rosto, pescoço, colo, seios, corpo inteiro, acolha-as, abrace-as.
Se jogue inteira nas águas doces ou salgadas.
Nade a seu favor, na sua direção.
Na direção que o seu coração escolheu.
Você sabe decidir o que é melhor para você.

Acredite: só você sabe.
Só você sabe das pedras que carregou, que limpou.
Hoje a pedra grande é o trono da Rainha que você é.
Você está sentada no seu trono.
As águas te banham.
Você sorri e chora.
Se sente abençoada por toda a sua linhagem ancestral que lhe guia e protege cada um dos seus passos.
Para frente ou para trás, quando for da sua escolha.

Agora, você deu meia-volta e caminha para trás.
Mas anda para frente, porque essa foi a sua escolha.

Mulher, fique com o seu sentir.
Fique com você.
Fique em você.
Sempre!

Deixe um comentário

Tendência