
Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.
No dia 28 de novembro de 2025, a cidade de Frankfurt premiará Bárbara com o 16° Tony Sender Preis, Prêmio de Direitos Humanos. Nascida no bairro da Liberdade, essa menina mulher traz em si a potência das nossas forças ancestrais e, com autenticidade, ela leva essa linguagem aos palcos da Alemanha e do mundo.
Esse texto é uma homenagem à Bárbara Luci Carvalho, ao útero que a pariu e aos úteros que vieram antes, que não desistiram da vida.
Esse prêmio será o 16º. Sem dúvida, é coisa de nossa mãe Oxum, que não abre mão da arte, não abre mão do que é bonito nem mesmo nas batalhas.
Pela primeira vez, uma mulher afro-brasileira, uma mulher de Abya Yala, também denominada América Latina, receberá esse prêmio aqui nesta cidade. Ela é a primeira mulher negra brasileira a ocupar esse espaço em Frankfurt, numa sala onde, durante séculos, foram coroados os homens brancos que dominaram e agrediram centenas de pessoas. Seus retratos estão lá.
Ela é nordestina, baiana, soteropolitana, da Liberdade, de onde vem o Ilê Aiyê, onde existe a Escola Mãe Hilda Jitolú. É de lá que sai o rufar dos tambores no sábado de carnaval, na Ladeira do Curuzú, levando sorrisos negros e potentes pelas ruas de Salvador, do primeiro bloco afro do Brasil.
Bairro da Liberdade, Ladeira do Curuzú, uma ladeira íngreme que exige condição física pra quem quer chegar lá em cima. É nesse bairro que ela nasceu e cresceu. É de lá que ela sonhou com um outro mundo, um mundo onde a cor da pele não seja um obstáculo.
Esse prêmio é concedido a cada dois anos a mulheres que lutam por direitos humanos, a pessoas que fazem disso o seu dia a dia.
Pela primeira vez, esse prêmio será compartilhado com duas mulheres que usam a arte pra colocar um acento na sociedade patriarcal e racista que temos até hoje, pra mostrar que na Terra não cabe mais o colonialismo e que precisamos acordar para a sustentabilidade.O Tony-Sender-Preis 2025 será compartilhado com Anne Breick, ativista queer-feminista e percussionista que, há mais de 40 anos, fortalece a presença de mulheres* e pessoas FLINTA na música popular e nas redes de apoio em Frankfurt — um encontro simbólico entre duas trajetórias que unem arte, resistência e solidariedade.
Sem diversidade não há futuro; sem diversidade não teríamos sobrevivido ao passado. O júri escolheu o trabalho de Bárbara porque ela marcou o feminismo interseccional, fez alianças contra o racismo e a discriminação LGBTQIA+.
Vim conhecer Bárbara nas nossas andanças aqui na Alemanha, falando daquilo que mais gosto, da perseverança das mulheres negras. Encontrei-a porque nossos caminhos se cruzaram, ela e Betânia. Somos as Transatlânticas: Bárbara, Betânia, eu e Tainá, o coletivo que não disputa espaços, simplesmente faz acontecer o acolhimento, performando nossas vivências e através disso compartilhando curas.
O grande desafio aqui, como mulher negra migrantizada, é não perder a identidade, é não desistir de si mesma. Esse trabalho de Bárbara é, por isso, singular. Fazendo jus ao seu nome, ela vem com sua baianidade aqui em Frankfurt, trazendo ventos fortes quando necessário e brisas de acolhimento para nós, pessoas migrantizadas pretas.
Esse festival tem sido único nessa região e na Alemanha, porque o mais importante nesse trabalho, que remete ao Magdalena Projekt, é o acolhimento.
São nada menos que nove anos desde o primeiro festival, o Festival Internacional de Teatro de Mulheres (Internationale Frauen Theater Festival), no qual é diretora artística. Ainda lembro que, no último dia do primeiro festival, estávamos sentadas numa tenda mongol, no meio um fogão de ferro com chá pra todo mundo que quisesse. Em círculo, trocamos experiências e, no fim, Bárbara perguntou como gostaríamos de concluir esse primeiro festival.
Cada uma das participantes pronunciou uma palavra que, pra si, foi importante, quase todas palavras de afeto, e ela, no fim, disse simplesmente “Love”. Amor pra dar e pra receber, amor pra compartilhar e reproduzir.
Essa planta deu frutos. Os encontros com Bárbara dão frutos, e esse prêmio é uma prova de que vale a pena não desistir, vale a pena ser autêntica, ser brisa de Oyá que leva a borboleta, ser leve quando necessário, mas também ter a força do búfalo, destemida e graciosa.
Com Corpus Mundi, ela performou nossa negritude e o poder do Axé, mostrou o sentido do corpo negro ser também território e força aqui nos palcos da Europa, foi aplaudida e abriu seu ateliê, o Atelier Diáspora, lugar de acolhimento de corpos e ideias evolutivas, descolonizando e aceitando emoções.
Com Corpos D’Água, ela reiterou a importância da solidariedade feminina nos movimentos de luta, nas reexistências que precisamos encarar. Digo reexistências porque nós continuamos existindo, baianas, apesar de nos reinventarmos dentro do contexto da Europa. Somos diaspóricas, somos as Transatlânticas.
Dia 28 de novembro estaremos lá. Queremos ver e aplaudir nossa amiga, que ela continue sendo exemplo de feminismos, diversidades, mulherismo e solidariedade para pessoas negras, pessoas que fazem arte e para aquelas que aplaudem arte e acreditam no respeito mútuo.





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