Gabi Monteiro é ativista semiárida, (des)educadora popular e multiartista. De Caruaru-PE, atualmente integra a equipe de relatoria de Direitos Humanos da Plataforma Dhesca. Mestra em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Mulheres e Feminismos, já atuou em diversos movimentos sociais feministas e antirracistas, principalmente em defesa da agroecologia, das juventudes, e da população lgbtqiapn+.

Uma frase famosa do Saramago diz: “é preciso sair da ilha para ver a ilha”.

No início deste ano, deixei minha casa, no agreste pernambucano, para viver uma imersão de quatro meses no continente africano. Já nas primeiras semanas, fui atingida pela compreensão: é preciso sair da diáspora para ver a ferida da diáspora. Com a distância de um oceano entre nós – mas dessa vez observando da outra margem – pude respirar um pouco melhor, e começar a investigar essa ferida. Profunda, metastática, torturadora e (aparentemente) totalizante… Fiquei assustada pelo seu tamanho, e nem ousei abordá-la pensando em termos de cura. Compreender o quanto eu me identificava com a ferida como a única possibilidade de existência e destrinchar onde as minhas ideias sobre mim mesma estavam alicerçadas nela já me parecia trabalho suficiente.

Quem seria eu sem a ferida? Já faz tempo que essa questão me move. Como todas as pessoas racializadas na diáspora, tenho grande intimidade com a tensão constante do estado de sobrevivência ativado; com o ódio supremacista branco em suas múltiplas expressões (inclusive dentro das nossas comunidades); e com a exaustão resultante de empregar tantos recursos e esforços para a necessária auto-defesa em nossa experiência social. Então [ambição], afinal, seria possível experimentar esse mundo sem a ferida, ou ao menos reduzindo sua influência? É pretensão demais achar que realmente posso me deslocar da ferida para observá-la – ou talvez no fundo já terei sido vencida, e não sei mais existir descontaminada?

Deixava as perguntas parirem seus desdobramentos, e, com curiosidade sincera, me dispunha a acolher o que viesse, enquanto observava os efeitos da travessia de re-torno no meu corpo. Começava a me sentir menos tensa, mais descansada. Apesar do lamaçal pegajoso dos traumas, caminhava, e me sentia animada com os caminhos que a pergunta – agora já com vida própria – abria. Destemida, me convoquei a explorá-los.

É importante não romantizar e “afrocentrar” (vou voltar nesse termo) a minha experiência. Esse deslocamento envolveu diversos aspectos: saí de uma cidade conservadora – fina flor do coronelismo do interior do Nordeste – e fui viver em uma capital efervescente e organizada para o turismo na África do Sul. Estava descomprometida com o mercado de trabalho, dedicando meses ao estudo da língua inglesa e ao lazer e suas possibilidades afetivas. Aliás, tomar essa decisão não foi fácil. Passar tanto tempo sem trabalhar, gastando meu suado dinheiro apenas curtindo a vida? Medo da escassez bateu fortão, e as vozes internas gritavam sobre a irresponsabilidade e o perigo de “desperdiçar” recursos preciosos. Aos 40 anos eu iria viver uma vida de adolescente branco, acordando de manhã com absolutamente nada para fazer além de novas amizades e ir para aula de inglês? Tive que me conectar profundamente comigo, para não deixar os ruídos me distraírem da dimensão do sonho.

O grande obstáculo para conseguir realizar este movimento – em um momento da minha vida em que construí as condições materiais e emocionais para isso – foi realmente a minha auto-autorização. Essa demorou mais para chegar do que o visto!

Mas chegou, e ao embarcar eu já sentia que tudo tinha valido a pena, antes mesmo de saber onde estava me metendo. Escapei do risco maior de todos: o de viver uma vida inteira me sentindo indigna de fazer algo por puro desejo e prazer. Fortalecida a musculatura do sonho, cresceu também o meu estado de presença. E comecei a viver as minhas merecidas férias do racismo brasileiro. Sou uma mulher parda: negra de pele clara, cabelo liso, com fenótipo marcadamente afroindígena. Em Capetown nem negra eu era, mas uma “pessoa de cor”. Nuances e complexidades do colorismo, que também atravessam minha vida no Brasil. Em qualquer lugar, no entanto, sou não-branca – com as dores e confusões que isso traz.

Mas seria tão limitado falar de negritude apenas como dor e confusão, ainda mais caminhando em solo africano. E partilho um pouquinho das minhas percepções amefricanas, sem grandes pretensões sociológicas: poxa vida como é bom entrar em um restaurante, sentar, pedir uma comida, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ir para um salão de beleza qualquer, por acaso, e os referenciais estéticos serem totalmente negros. Em qualquer supermercado, encontrar facilmente produtos adequados para pele negra, cabelos crespos. Aliás, é sobre encontrar tudo: encontrar o que você precisa, encontrar outras pessoas parecidas, encontrar imagens com as quais você se identifica O TEMPO TODO. Que embriaguez deliciosa!! Então é assim que se sentem os brancos do brasil? Viver essa naturalização de ser uma pessoa… Que alívio imenso! Sentir que sim, é verdade: você é alguém, você existe.

Que sensação poderosa, e que bem imenso que isso fez para a minha saúde mental. O nível de stress emocional de lidar cotidianamente com o racismo à brasileira – esse racismo pegajoso, meloso, como diz o Professor Kabengele Munanga – é altíssimo. No ano passado, estive em Moçambique por um mês. No último dia da viagem, caminhando pelas ruas de Maputo, comecei a chorar. Entendi que tinha sido poupada de empregar  aqueles 70% de energia diária reservados para manejar microagressões e criar estratégias de sobrevivência; e esse repouso teve um efeito profundamente restaurador. Chorei, imaginando que em poucos dias eu teria que “receber” de volta aquela carga pesadíssima. Na hora de ir embora, no aeroporto, o funcionário da companhia me chamou num canto para conversar. Já armada, sigo o moço, celular em punho para filmar qualquer situação de discriminação (não seria a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez…), respostas na ponta da língua. Eu nem lembrei que lá nem preta eu era! Daí o gentil funcionário me pergunta: “A companhia está fazendo aniversário e a senhora foi escolhida aleatoriamente para ter upgrade da sua passagem para primeira classe. A senhora aceita?”

Aceitei feliz da vida, lógico. Quando é que no Brasil eu fui escolhida “aleatoriamente” em um aeroporto para qualquer outra que não fosse sofrer violência, ser humilhada? Fiquei determinada a ampliar em termos cronológicos essa experiência incrível de não estar sob o julgo do racismo brasileiro, e ver como me sentia. Por isso, esse ano voltei ao continente, para passar alguns meses. E o espaço mental que ganhei, a abertura que isso me trouxe, foi algo muito precioso, que me trouxe tanta felicidade. Viver dias que viraram semanas que viraram meses em uma imersão que teve um impacto extremamente positivo na minha saúde mental. E aqui é importante reforçar que não pretendo romantizar nem hegemonizar o continente africano, onde as questões de gênero me pegam de uma forma completamente diferente, por exemplo, e preciso construir/acessar outros repertórios para lidar com o sexismo. Os impactos da colonialidade são diversos e distintos, a depender dos territórios. Afinal, a Europa fodeu a todos nós, mas fodeu a cada um de uma certa forma.

Voltando às palavras do Professor Kabengele sobre o nosso país, ele afirma que o racismo no Brasil é o crime perfeito, e eu concordo plenamente. O racismo aqui está sempre presente: muito bem estabelecido, organizado, orquestrado, institucionalizado. Mas se você apontar, nossa… Você é a louca, a problemática, a agressiva. O racismo brasileiro é tão perfeito que o culpado é a vítima – e se você for uma pessoa negra denunciando a farsa, sofrerá as consequências. O mesmo não se aplica aos brancos, que ganham ainda mais status de humanidade. Guerreiro Ramos dizia que o Brasil é o país mais racista do mundo, e considero esse elemento do gaslighting particularmente perverso. Afinal, que racismo? Se só está acontecendo dentro da sua cabeça!

Quando você é uma mulher negra no brasil, você não tem opção: a sua vida será marcada por uma sucessão de violências e abusos diversos. Você será desumanizada cotidianamente. Em todas as esferas sociais, conhecerá a humilhante sensação de não ser percebida como um ser humano. Não será vista como gente em ambientes de trabalho, de estudo, de lazer, em relacionamentos de amizade ou românticos. Você estará sempre se fodendo, e não tem opção: a violência está dada! E é muito, muito difícil encontrar caminhos para se construir tendo que navegar uma experiência social tão insegura.

Estou de volta, e o cenário por aqui continua desolador. Mas, algo em mim mudou. Não é possível retirar da memória do meu corpo os meses em que me senti tão feliz e relaxada, contando nos dedos de uma única mão (três!) as situações de racismo que sofri – e que consegui reagir com bastante presença de espírito. Pois, afinal, todo mundo sabia e admitia que o racismo existia. E até brigar é mais fácil quando o ódio está colocado na mesa, e você não precisa desperdiçar energia convencendo seus torturadores que está sendo torturada. Eu me senti uma pessoa durante meses, e preciso admitir que dilatei algo que já me era familiar, pois experimentei esse sentimento diversas vezes na vida. Nas relações afetivas em que me senti segura, nas festas populares nordestinas, na natureza, em alguns movimentos sociais, nas diversas expressões da cultura negra e afroindígena brasileira.

Sou brincante popular, e estou convencida da importância política da alegria negra e da festa enquanto tecnologia, tanto em defesa do nosso bem viver como enquanto potentes manifestações de autodefinição. Nossos ancestrais encontraram caminhos para manter o legado de resistência vivo e minha vida foi atravessada por inúmeras experiências de afro-referencialidades, para trazer um conceito da filósofa Francineide Marques. Segundo ela, nossas culturas afro-referenciadas nos ensinam a balizar nossas condutas e comportamentos, nas diversas dimensões, pela ética. Aqui não estamos olhando para um centro único, exclusivo, mas para uma multiplicidade de referências, tanto diaspóricas quanto africanas.

A verdade é que essas férias do racismo brasileiro só me reiteram a importância de firmar um compromisso de aprofundamento e amplitude das afro-referencialidades. Sem elas, não é possível sobreviver, prosperar, ou mesmo me conhecer. Entendo muito bem que o racismo é uma problemática que beneficia os brancos e que o desmonte disso deveria ser responsabilidade deles. Mas sabe deus se esse dia chegará. E, do nosso lado, além de toda a luta por condições materiais mínimas para garantir dignidade do nosso povo, sem dúvida temos também a necessidade de um trabalho emocional de cura muito importante a ser feito, para que nossas existências não sejam definidas apenas pelo trauma.

A ferida continua aqui, e de vez em quando sangra, mas eu me recuso que esse sangue seja a única tinta a registrar a história da minha vida. Esse roteiro é meu, e eu o escrevo como quero, assentada no belo repertório de pele, memórias, histórias que me compõem, e das muitas formas afro-referencializadas possíveis de narrar – e de criar.

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