#ElieteNãoEstáSó
O 20 de Novembro é o dia de Zumbi, da Marcha das Mulheres Negras e da memória viva que reafirma nossa existência coletiva e nosso projeto inegociável de poder e reparação. Para abrir este momento, trazemos o poema de Rejane Stuntenbeck, que nos lembra que a Consciência Negra é mais que uma data, é continuidade e luta permanente, especialmente das nossas irmãs na linha de frente do nosso povo, como Eliete Paraguassu, a primeira vereadora quilombola eleita na cidade de Salvador, a cidade mais negra do Brasil.
“Quero te escrever, Eliete Paraguassu…
Começar cantando:
“Que bandeira de vida é a nossa…
e a luta é a vida, e resistir…
somos Dandara, Luiza Mahin, Carolina Maria de Jesus,
Anastácia, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo e todas nós.
É Luther King, é Zumbi, Nelson Mandela…”
Eliete Paraguassu,
Mulher negra na luta,
luta que tu escolheste — que é defender a vida.
E defender a vida é um ato de amor.
Sabes, Eliete… a elite branca quer nos ver pequenas, chateadas e chorosas…
mas esquecem que somos mulheres negras, que carregamos a ancestralidade,
carregamos a força ancestral dos nossos e das nossas.
Esquecem que somos mulheres negras e fortes —
e tu, Eliete, carregas a fortaleza da vida.
Eles esquecem que o nosso corpo é de luta.
Mas o nosso corpo de luta carrega também a força transformadora do amor e de amar…
um amor ético, que deseja o bem coletivo.
Eliete, tu colocas o amor na centralidade da vida —
o amor que agrega, que aquilomba a vida,
porque o nosso amor negro cura.
E falando mais de ti, minha irmã Eliete…
tu és das águas.
Eliete significa natureza divina.
Tu és Élida… vens de cima, dos céus, das alturas do universo…
E para completar, vem o Paraguassu, que significa peixe seláquio,
de corpo longo, que vive nas profundezas dos oceanos…
E sabes por que, Eliete, és esta mulher potente?
Porque tu fazes a luta girar em torno da vida e do bem comum…
porque tu, Eliete, és conosco…
porque estás junto com tantas outras mulheres pretas
mariscando a vida e o amor nos manguezais da Ilha de Maré
e fazendo a vereança das águas…
És uma mulher forte das águas…
somos juntas mulheres fortes das águas.
E Eliete não está só…
Somos todas Eliete Paraguassu da Mandata das Águas.
Um grande beijo das mulheres das águas de Frankfurt.
Neste 20 de novembro, recordamos também a passagem de Eliete Paraguassu pela Alemanha, em 2021, quando integrou a delegação brasileira do movimento negro brasileira que esteve de viagem pelas principais cidades da Europa no âmbito da COP26, em Glasgow, na Escócia.
Eliete chegou a Frankfurt justamente no Dia da Consciência Negra e, em poucos dias, construiu uma agenda intensa: debate sobre racismo ambiental na Ubuntu Haus, visita à Floresta Ocupada de Fechenheim e participação em protesto público denunciando a contaminação da Baía de Todos-os-Santos e o sofrimento do povo da Ilha de Maré.

Sua presença mobilizou coletivos ambientalistas e redes de solidariedade internacional, deixando visível o que muitos insistem em silenciar: as implicações do racismo ambiental sobre as comunidades quilombolas do litoral baiano, especialmente o povo das águas que vive da pesca artesanal, do turismo comunitário e da preservação do território.




Hoje, Eliete , primeira mulher negra vereadora da Câmara Municipal de Salvador , enfrenta perseguição política e corre o risco de ter seu mandato cassado.
É um ataque que ultrapassa sua biografia individual: atinge as mulheres negras, os territórios tradicionais, direito à vida quilombola, mas sobretudo a garantia constitucional da participação política plena, de um mandato popular e legitimado pelo povo.
Por isso, neste 20 de Novembro, afirmamos em uníssono, desde Frankfurt e desde a diáspora afro-atlântica:
#ElieteNãoEstáSó.
Estamos com Eliete Paraguassu.
Estamos com o povo da Ilha de Maré.
Estamos com todas as mulheres negras que defendem seus territórios como ato de amor, coragem, compromisso coletivo e bem-viver.





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