Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.

Hoje acabei de ler o livro de Ana Maria Gonçalves, “um defeito de cor”.  Esse romance veio comigo de Salvador, na última visita a essa cidade, que fiz com o intuito de, mais uma vez, estar com as famílias, andar nas calçadas irregulares desta cidade, nas feiras de São Joaquim e Sete Portas. Apesar de eu ter saído de lá há tantos anos, a cidade não sai de mim. 

Sempre que entro em Salvador, entro em minhas realidades infantes. Mais do que nunca, estou convencida de que não preciso mais falar de pretéritos. Falo de realidades, minhas realidades. Verdades? Essas vivências que são átomos, proteínas, e tudo o que me compõe como ser humano estão sempre em mim, presentes. Onde quer que eu ande, onde quer que andemos, nós que somos mulheres de diásporas, em outras diásporas, havemos sempre de trazer conosco heranças — alegres e tristes, conscientizadas ou não.

  A leitura deste livro mexeu comigo em todos os mais amplos sentidos. Será que devo dizer “lato sensu” para que soe mais “inteligente” e prove a quem seja academizado que também conquistei espaços que não tinham sido reservados para pessoas da nossa cor, para pessoas que chegaram ao Brasil através de sequestros e coerções?

Dizer que essa experiência foi “leitura” seria reduzir muito essa obra. Vou falar que vivenciei novamente náuseas de navios. As amarguras de Kehinde, sua força e escolha por continuar aqui no Aiyé, me levaram às lágrimas. Há muito que não me permitia vivenciar narrativas tão potentes, porque essas palavras transcritas — vivências transatlânticas, identitárias — continuam soando em nossas almas.

A edição que li é a 39ª, publicada no ano anterior, 2024 — ano em que se encerrou a Década Internacional dos Afrodescendentes — e mesmo assim não tivemos as conquistas que desejávamos. Ainda não temos o protagonismo a que temos direito. Aqui, deste lado do mundo, há um grande clima de insatisfação. Agressões são verbalizadas no meio da rua. Há uma tendência a repetir histórias de brutalidades, histórias coloniais, onde espera-se que pessoas migrantizadas, que chegaram nesta terra confiando em estar adentrando uma nação democrática, sejam vistas como intrusas, persona non grata, seres que merecem menos respeito.

Ao mesmo tempo, as nações colonizadoras querem continuar invadindo terras e violentando direitos humanos que elas mesmas assinaram há quase 80 anos. E, nesse tempo, toleraram e ajudaram a manter sistemas como o do apartheid na África do Sul, assim como diversas formas de racismos estruturais que asseguraram poderes econômicos e privilégios: White Supremacy.

Naquela época, assim como hoje, as cabeças que querem impor democracias estão ainda muito longe de perceber que as diversidades precisam ser respeitadas também na hora de definir sistemas políticos, espiritualidades, sustentabilidades, mundos.

Quando a Alemanha fala em “migrantes”, não se refere aos seres humanos com privilégios de supremacia branca, aqueles que tinham colônias na África e na América Latina. A migrantização dos seres se refere às pessoas que têm mais melanina na pele, mesmo que tenham passaportes de países colonizadores — ou seja, mesmo que estes seres sejam juridicamente europeus em sua documentação.

Então, o que quero dizer é que, mesmo depois de tanto tempo, ainda não há inteligências que nos resguardem dos racismos. As estruturas pervertidas durante a colonização e o tráfico escravagista persistem, e é por isso que senti tanta angústia durante esse livro. Durante o tempo em que o tinha em minhas mãos, vivenciei, página por página, experiências que poderiam ter sido de minhas avós, tias e tantas outras Yás, matriarcas sobreviventes que nos garantiram segurança, dizendo sim à vida.

Sim, infelizmente, depois de tanto tempo sem apresentar narrativas na nossa coluna, preciso admitir que não tenho notícias tão boas para dar quanto gostaria.

O livro Um defeito de cor deve ser lido por muitas pessoas dentro e fora do Brasil. Essa narrativa precisa ser analisada. Cada uma das personagens é um cosmo, e acho que vou criar aqui um desafio: vamos nós, mulheres negras, escrever, descrever, reviver cada uma dessas personagens que nossa Deusa criou? Cada uma das personagens geradas por Ana Maria Gonçalves merece ser redescrita e aprofundada. Eu não consegui dormir depois da última página, porque fiquei pensando nelas — nas Adeolas, nas Esmérias, nas Felicianas… tantas vozes negras espiritualizadas.

E, para não continuar sofrendo na saudade dessa litera/oratur, rebusquei uma das leituras de conforto, de narrativas de esperança, onde me revejo também no meu papel de educadora. Por isso, resolvi reler A cor da ternura, de Geni Guimarães.

Não pretendo trazer aqui uma crítica literária de algum desses livros. Só quero dizer que a nossa cor também nos alimenta, nos fortalece, e não podemos nos permitir abrir mão dos nossos direitos. Quero dizer que, entre esses dois livros, há algo em comum no que se refere a trazer retratos do Brasil, a resgatar biografias que foram apagadas dentro do nosso sistema. No Brasil, assim como na Alemanha, ainda não se cumprem as promessas feitas na Declaração Universal dos Direitos Humanos. E eu digo que, enquanto houver autoras como essas, hei de continuar tendo esperança.

Não esquecerei que: “A gente combinamos de não morrer” (in Olhos D’Água, p. 99, Conceição Evaristo).

Uma resposta para “De cor pra cor / Ana Graça Correia Wittkoviski”.

  1. Terminei de ler esse livro em janeiro/2023 e, super recomendo para todas as pessoas lerem. Deveria ser leitura obrigatório nas escolas brasileiras. Parabéns pelo texto Ana Graça. Gostei muito!

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