
Betânia Ramos Schröder – nascida no Recife, Pernambuco, é uma autora, socióloga e ativista brasileira. Ela se dedica a temas como migração, antirracismo, decolonialidade e à crítica das estruturas de poder globais. Seu trabalho transita entre a literatura e a reflexão política. Foi colunista da revista Carta Capital, onde publicava regularmente textos de opinião e análises. Atualmente, colabora com o blog Vozes da Diáspora e com a revista alemã iz3w.
No momento atual, em que eu mesma atravesso desafios com a minha saúde pessoal e a de membros muito próximos da minha família, e sou levada a repensar os limites do corpo, da estabilidade e das formas de seguir, reflito com ainda mais nitidez sobre o que sustenta a vida migrante quando o chão se desloca. Pois migrar não é apenas mudar de país, aprender uma língua, organizar documentos ou buscar inserção no mundo do trabalho, entre tantas outras razões sociais e coletivas relevantes. Há uma dimensão mais profunda dessa experiência, muitas vezes silenciosa, guardada na intimidade solitária em que o deslocamento passa a tocar o corpo, a casa, os vínculos, a saúde emocional e a própria fragilidade de permanecer ativamente no mundo.
No debate brasileiro, a feminização da migração mostra que muitas mulheres não migram apenas acompanhando trajetórias familiares, mas também como protagonistas de percursos marcados por responsabilidade material, mediação afetiva e sobrecarga de cuidado. Essa perspectiva ajuda a compreender também o contexto alemão, onde tantas mulheres vivem entre as exigências concretas da sobrevivência, o desafio dos afetos interculturais potencialmente conflituosos e a tarefa cotidiana de sustentar a vida em meio à crise.
A Alemanha dispõe de uma importante infraestrutura pública no campo do bem-estar que molda o aparelho do cuidado: seguros de saúde, hospitais, atendimento psicossocial, creches, serviços sociais de aconselhamento, estruturas de acompanhamento familiar, negociação de dívidas, entre outras possibilidades que podem ser ativadas em crises pessoais e familiares. Isso precisa ser reconhecido. Mas entre a existência dessa rede e a possibilidade concreta de habitá-la com dignidade há um hiato que precisa ser nomeado e compreendido. O acesso ao cuidado não depende apenas da oferta formal de serviços, mas da possibilidade de decifrar suas nuances, confiar em suas linguagens, reconhecer as rotas que os tornam acessíveis e conseguir chegar até eles justamente quando já se está exausta demais para traduzir a própria dor em termos compreensíveis para a instituição.
Ao olhar ao meu redor, vejo uma paisagem crescente de adoecimentos, sobrecargas e rupturas que raramente chegam de forma isolada. A crise se apresenta como acúmulo e entrelaçamento: doenças crônicas e psíquicas, famílias nucleares desmanteladas, separações dolorosas, empobrecimento, solidão enquanto problema de saúde pública, dificuldades com a língua, isolamento cultural, medo do futuro, tensões em torno dos filhos, sobrecarga burocrática e do trabalho. Não se trata apenas de uma soma de problemas, mas de perceber como essas dimensões passam a organizar a vida cotidiana e a maneira como se vive o presente. É aqui que a experiência migrante exige outra escuta, mas também outras institucionalidades.
Talvez por isso a pergunta central não seja apenas onde buscar ajuda, mas: que paisagem do cuidado temos para recorrer quando a vida pesa em tantas camadas? Quais espaços institucionais realmente existem para nós? Que entendem nossos apelos mais íntimos, nossas nuances culturais, nossa linguagem entre mundos, nossos medos? O que se torna efetivamente acessível quando se está cansada, sozinha, emocionalmente sobrecarregada e distante da rede familiar, das comunidades de fé e da sociedade de origem, especialmente na realidade de mulheres imigrantes?
Essa pergunta precisa ser feita com ainda mais urgência no tempo histórico em que vivemos. As crises que atravessam a vida migrante não são apenas privadas. Elas se aprofundam num mundo marcado por guerras, endurecimento das fronteiras, radicalização autoritária e avanço de discursos racistas e anti-imigração que voltam a disputar legitimidade pública. Na Alemanha, isso não aparece apenas no plano abstrato do debate político. Entra no cotidiano: no perfilamento racial de jovens migrantes, uma das matrizes do racismo institucional enraizado na Alemanha, nas experiências de suspeita e vigilância, nas diferenças de tratamento em hospitais e instituições públicas, nas relações interraciais em que o racismo se torna cada vez mais palpável e na sensação de que certos corpos seguem sendo lidos, antes de tudo, como problema, risco ou excesso.
Um cenário que, à luz do capitalismo racial formulado por Ruth Wilson Gilmore, revela a consolidação de estruturas que operam não pela falha, mas pela produção sistemática do abandono: estruturas que organizam quem deve ser protegido e quem pode ser exposto, transformando o descaso em norma, a desproteção em política e a precariedade em condição gerenciada de forma eficaz.
Como mãe de um menino, essa questão me atravessa de forma especialmente dura. O medo de que meu filho seja interpretado como “marginal”, de que seu corpo seja confundido com ameaça e tratado como alvo, era uma realidade que eu conhecia do Brasil. Hoje, esse medo já não me parece distante da Alemanha. É diante desse cenário que a formulação do cuidado também chega ao limite. Porque, quando experiências de desumanização se normalizam, o cuidado já não pode ser pensado apenas como acolhimento ou reparo.
No caso das mulheres migrantes, sobretudo negras, esse desgaste ganha outra densidade, porque se soma à expectativa de força que tantas vezes recai sobre nós. Espera-se que suportemos, que nos adaptemos, que sigamos em frente. Para familiares, amizades e pessoas queridas no país de origem, a migração aparece muitas vezes associada à ideia de conquista, coragem, mobilidade, “ter chegado lá”. Nem sempre é simples romper essa imagem. Nem sempre é fácil dizer que a vida ficou difícil, que a solidão cresceu, que o empobrecimento chegou, que o casamento acabou, que o corpo adoeceu, que a crise chegou. Há um desafio delicado entre se mostrar e preservar a autoimagem também cultivada pelos outros. E talvez aí esteja uma das dimensões mais difíceis da vida migrante: ter de sustentar, para si e para o mundo, uma força que nem sempre acompanha o peso do que se vive.
É justamente nesse ponto que redes de apoio, essas institucionalidades do contexto migratório que praticam, formal e informalmente, o cuidado, tornam-se centrais na crise, a exemplo da solidariedade entre mulheres no meu próprio entorno. É comum que sejam as próprias comunidades migrantes que tornem o cuidado legível nas complexidades da experiência migrante. Em suas diferentes trajetórias, escolaridades e vivências, o contexto da migração possibilita o cruzamento de informações fundamentais para decifrar cartas, linguagens médicas ou jurídicas, acompanhar consultas, orientar sobre escolas, indicar caminhos diante do Jobcenter, do Jugendamt ou da Krankenkasse, acolher uma separação, fortalecer uma mãe exausta e doente crônica, perceber sinais de esgotamento antes que tudo desabe.
Os vínculos tardios criados no contexto migratório, amizades nascidas pelo compartilhar uma mesma língua, ocupar um território num corpo racializado, de mulher, de trajetórias de adaptação semelhantes, histórias de violências raciais, geram amizades, encontros frequentes e, em muitos casos, como consequência, o nascimento de agrupamentos de pessoas. Nesse contexto nascem pequenas infraestruturas comunitárias migrantes e se consolidam numa paisagem diaspórica de associações, espaços culturais, rodas de samba, feijoadas, encontros, redes informais de apoio e outras formas de convivência em torno da experiência migrante e suas necessidades próprias. São estruturas que reinventam família e apoio institucional a partir dos afetos, da circulação de informação e da solidariedade prática. Não raro, é na experiência partilhada que a crise deixa de parecer fracasso individual e passa a ser compreendida como expressão de uma condição coletiva aos olhos de quem isoladamente se encontra imersa em preocupação.
Há também outras formas de cuidado, menos reconhecidas pelas instituições, que podem ser decisivas para sustentar a vida. Penso, por exemplo, no que significou para mim encontrar, na poesia e na performance, uma outra linguagem de expressão. A experiência com a performance Corpos d’Água, de Bárbara Luci Carvalho, abriu para mim um território importante de elaboração, escuta e presença, desde o processo até as apresentações. O espaço físico, a comida partilhada, a conversa, o silêncio, o criar em conjunto. A infraestrutura do Atelier Diáspora, de Bárbara, no contexto do Antagon TheaterAKTion, tornou-se um lugar de acolhimento, concentração, afeto e descoberta libertadora de novas formas de expressão em mim mesma.
Em contextos migrantes, criar, escrever, performar, ler em público e ser lida não é apenas produzir cultura. É também reconstruir linguagem para aquilo que muitas vezes não encontra comunicação nem ressonância, sobretudo quando nossos talentos são constantemente ocultados pelas demandas das nossas existências, marcadas pela dor histórica vinda das plantações, que insiste em definir quem somos.
O mesmo vale para espaços de apoio espiritual, para o engajamento político e para a possibilidade de viver territórios culturais em que a experiência migrante não precise ser traduzida o tempo todo a partir da falta. Nem sempre esses espaços são acessíveis a todas as pessoas, inclusive por razões de custo ou geografia. Ainda assim, seguem sendo fundamentais como lugares de regeneração, pertencimento e circulação de força. São espaços em que a vida reaparece pelos vínculos profundos atravessados por memória, criação e bem-viver.
Não se trata de idealizar a comunidade, nem de opor de forma simplista as redes migrantes à estrutura institucional do Estado. Trata-se de perguntar onde está o diferencial da nossa cultura do cuidado no contexto da migração. O que fazemos umas pelas outras que nem sempre encontra lugar nas instituições formais existentes? Talvez uma escuta menos fragmentada, uma atenção que não separa o sofrimento em partes estanques, uma compreensão mais imediata de que a crise não é apenas psicológica, econômica, linguística ou conjugal, mas um entrelaçamento de camadas que pressionam a vida no ciclo vicioso da exaustão, definidas por uma ideia muito concreta sobre onde nossos corpos migrantes devem circular, produzir e existir. Corpos migrantes não vivem crises isoladas, mas cercos limitantes.
É nesse sentido que o cuidado se afirma, sobretudo, como gesto político. Para Denise Ferreira da Silva, a exaustão não deve ser lida apenas como desgaste pessoal, mas como efeito de uma lógica de poder que captura tempo, energia e vida para extrair valor. Nesse horizonte, cuidar deixa de ser apenas resposta à crise e pode se tornar rota de fuga, a nossa recusa diante de um mundo — e de um Estado-capital — que nos quer isoladas, adaptadas, permanentemente alertas, funcionais e exaustas.
Cuidar é enfrentar estratégias de individualização, recusar as formas de poder que corroem vínculos, capturam corpos e disciplinam coletividades insubmissas. Cuidar é interromper a organização do desamparo — e afirmar, contra ela, práticas concretas de sustentação da vida. Cuidar é revolucionário.





Deixe um comentário