Alinhavando idéias – Mai 2026

Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBA. Pós-graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etnologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescendentes na Alemanha.
Os muitos caminhos de minhas aprendizagens têm sido tão infinitos que tenho certeza de que nunca alcançarei o fim. Hoje essa ideia me traz alegria e repouso, antes tinha angústia quando pensava em não poder terminar um aprendizado.
No meu trabalho, como pessoa negra migrantizada, na Alemanha, nunca tive uma zona de conforto, como algumas pessoas que são privilegiadas pelas biografias e posições geográficas de onde vieram. Falo das pessoas que têm os passaportes “legitimados” pelo eurocentrismo, ou digamos, “White Supremacy”. Não, não tenho, e com o tempo e a idade percebo que nunca terei, porque essas zonas de conforto não permitem reflexões como as minhas, não permitem questionamentos sobre veracidades, religiões não monoteístas, perspectivas não patriarcais. O meu conforto é a aprendizagem. Sou do tipo de pessoa que vibra com descobertas, e as melhores descobertas são quando somos confrontados com o conhecimento sem que estivéssemos procurando. Esses momentos são, para mim, presentes dos universos, são copulações e cumplicidades de energias que vão muito além dos nossos limites. São momentos de prazer.
Hoje venho compartilhar aqui um aprendizado novo para mim. Um novo velho aprendizado.
Educada para crer na Igreja Católica, mas não consegui descrer das realidades afrodiaspóricas dos terreiros de candomblé, das mulheres de branco carregando o cesto de pipocas para Omolú. Imagens sempre me impressionaram muito, formas e cores sempre tiveram, em minha vida e fantasia, um papel importante. Desde que aprendi a ler, me apaixonei por leitura, e muito do meu conhecimento e reflexões são aprendizados retirados das mais diversas leituras, das mais diversas experiências, que estavam muito distantes da minha realidade do Sobradinho, da Vasco da Gama, do Rio Lucaia, que atravessava nosso vale e, talvez por conta dessa presença aquática, uma região com muitos terreiros de candomblé. Entre eles, pertinho da minha casa, o Terreiro de Oxumarê, situado entre o Sobradinho, localizado no bairro que hoje se chama Federação. A escada do terreiro faz ligação entre o Sobradinho e a rua Vasco da Gama.
Na Vasco da Gama tem o Convento das Ancilas do Menino Jesus. Essas irmãs, que na minha infância mal falavam português, eram as diretoras da nossa escola, a Escola São João Batista. No começo, uma escola só para meninas, mais tarde também meninos podiam estudar lá. Aquelas mulheres brancas, em seus hábitos brancos, tinham o privilégio de serem respeitadas no nosso bairro, um bairro de pessoas pretas. Andavam pela rua e podiam chegar em qualquer casa sem serem assediadas, porque eram freiras, as noivas de Jesus.
Elas iam de casa em casa para convencer as mães a mandarem as crianças para a igreja, aos sábados e aos domingos, quando havia ofertas, presentes, brinquedos que eu nem sabia que existiam, que não tinham na minha casa.
A igreja de São João Batista era diretamente ao lado da nossa escola e, todos os dias, antes de entrar na escola, tínhamos que fazer fila e rezar o Pai Nosso. Na igreja, havia uma pintura de um homem branco, de barbas, sentado em uma poltrona confortável, uma poltrona como eu não conhecia em nenhuma das casas onde eu andava no nosso bairro. Aprendi que era a imagem de Jeová, Deus Pai. Ele tinha um olhar muito sério. À sua volta, anjos. Muitos anjos. Brancos. Cabelos encaracolados, loiros. Olhos azuis. Bocas rosadas. Bochechas rechonchudas. Gargantas brancas. Não sorriam, nus e com um pano em volta das partes que deveriam ser, provavelmente, as partes genitais.
Como criança que aprendeu a ter culpa e que todos nós somos pecadores, perguntava silenciosamente, perguntava para mim mesma, porque nunca tive coragem de perguntar a alguém: qual é o sexo dos anjos? Essa pergunta, engolida e calada na época, era só para eu saber se eram meninos ou meninas.
Meu mundo era muito pequeno, limitado. Eu era uma criança pequena da Vasco da Gama e, nos nossos mundinhos de culpas, o certo era masculino ou feminino, e Deus era naturalmente masculino. A imagem daquele homem branco, barbudo, com olhar sério, nos observando dia e noite, parecia escutar nossos pensamentos e ouvir todas as palavras. Eu tinha medo.
Mas os anjos? Esses eram indefinidos. Ou será que tinham todos os gêneros?
Chegamos ao ano de 2026, pelo calendário gregoriano. Como pedagoga intercultural em pré-escola na Alemanha, uma das minhas responsabilidades é trazer o aspecto da diversidade na educação das crianças, com o objetivo de aprendermos sobre democracia e direitos humanos. Esse tema da diversidade, da não heteronormatividade, como ainda é descrito na maioria dos livros infantis na Europa, a diversidade de gênero, que parece ser um tema tão novo para alguns, é, na verdade, um assunto muito antigo. É um assunto que já foi tratado pelo judaísmo.
Assim, aprendi há pouco tempo que, no Talmud, o gênero não é apenas binário, ou seja, há centenas de anos já havia a percepção de que os seres humanos são diversos. E, se é assim, se Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, então que aceitemos que respeitar a diversidade de gênero é aceitar a Deus, aceitar a natureza humana.
Na descrição de Rachel Scheinerman, assim como em outras fontes em que pesquisei nos últimos dias, existem nada menos que sete gêneros. Quero deixar claro aqui que não sou especialista no assunto. Tenho apenas o prazer de compartilhar, de alinhavar os pontos nesta minha escrita diaspórica.
Mais uma vez encontro o número sete. Mais uma vez me deparo com esse número que, em muitas religiões, é significativo, o número de Exu para uns, o número dos dias da semana para outros, número de sorte ou número de azar. Uma questão de perspectiva.
Resolvi trazer aqui essa fonte da internet porque vejo como uma forma de acessibilidade para muitas pessoas, uma forma de democratização de saberes e, quem sabe, uma pequena contribuição para o respeito mútuo:
The Seven Genders in the Talmud
Judaism has recognized nonbinary persons for millennia.
By Rachel Scheinerman
https://www.myjewishlearning.com/article/the-eight-genders-in-the-talmud/
Os Sete Gêneros no Talmude
O judaísmo reconhece pessoas não binárias há milênios.
Por Rachel Scheinerman
Introdução ao Sexo e à Sexualidade
Gênero e Sexualidade
Achava que o gênero não binário era um conceito moderno? Pense novamente. A compreensão judaica antiga do gênero era muito mais sutil do que muitos supõem.
O Talmude, um compêndio enorme e autoritário das tradições jurídicas judaicas, contém, na verdade, nada menos que sete designações de gênero, incluindo:
Zachar, masculino.
Nekevah, feminino.
Androgynos, com características tanto masculinas quanto femininas.
Tumtum, sem características sexuais.
Aylonit, identificado como feminino ao nascer, sem desenvolver características sexuais secundárias femininas na puberdade.
Saris hamah, identificado como masculino ao nascer, sem desenvolver características sexuais secundárias masculinas na puberdade.
Saris adam, identificado como masculino ao nascer, sem desenvolver características sexuais secundárias masculinas devido à castração.
Os rabinos não usavam a palavra gênero como fazemos hoje, referindo-se a uma construção cultural distinta do sexo biológico. Os sete gêneros que eles descrevem são distinguidos por realidades físicas e biológicas, não por categorias condicionadas culturalmente. Mas, como o gênero tem muitas implicações na lei judaica, a forma como os rabinos entendiam essas categorias tem consequências para os direitos e responsabilidades que tais indivíduos desfrutam na comunidade.
Os rabinos também tinham uma tradição de que o primeiro ser humano era tanto homem quanto mulher. Versões desse midrash são encontradas em toda a literatura rabínica, inclusive no Talmude.”
Assim me peguei, no ano de 2026, refletindo, depois de muito tempo, sobre o sexo dos anjos.
Foi com muita alegria que aprendi, que recebi essa informação e me sinto na responsabilidade de compartilhar esse conhecimento aqui nesta página. A feminilidade dos anjos naqueles quadros dentro da Igreja de São João Batista, na Vasco da Gama, em nossos mundos negros, eram quadros eurocêntricos, coloniais e, antes de mais nada, parte de projetos de absorção de nossas identidades, de enfraquecimento da nossa autoestima como pessoas negras.
A nossa casa, que foi construída ao lado da casa de vó, estava exatamente no meio, entre a igreja católica e o Terreiro de Oxumaré. O terreiro onde eu recebia mingau de carimã na merenda, na pausa do curso do programa Mobral. A nossa professora era iniciada no candomblé e, por isso, o espaço do terreiro foi cedido para dar aulas para as crianças da comunidade, as crianças que não conseguiram vaga na Escola São João Batista, talvez por falta de dinheiro para o uniforme. Não sei. Eu só sei que frequentei ambos os templos.
No Terreiro de Oxumaré eu tinha medo das cabeças das cabras, não sabia o significado daquelas oferendas, mas, como aprendi que o diabo tinha chifres e que tudo que vinha da África era ruim, aprendi também a acreditar que aquelas pessoas, que eram tão simpáticas e empáticas conosco, deveriam ser pessoas ruins.
Os anjos assexuais deveriam me proteger de todo mal. Aos sete anos eu já sabia o que era pecado e preconceito, porque, sete dias por semana, víamos filmes e novelas onde os bons eram brancos e os maléficos eram os negros.
Na igreja lá estava aquele homenzarrão de barbas brancas e longas, enfezado, sentado na sua poltrona para nos controlar, vendo tudo. Vixe.
Foi indo para a igreja que aprendi o que era culpa. Culpa da pobreza. Culpa dos pensamentos. Culpa universal. Culpa pelo desejo de ter o que não podia. Culpa de roubar doces em casa. Culpa de não conseguir compreender a conta de divisão. Culpa de existir. Culpas.
Através da binariedade, podemos ser manipulados com muito mais facilidade. É mais fácil exercer poder quando temos a presunção de avaliar e definir seres. Assim, os anjos, aquelas criancinhas assexuais, bem alimentadas, que deveriam ser meus protetores segundo a igreja, ou pelo menos como eu compreendia na época, não combinavam com meus anseios, minhas necessidades e, menos ainda, com o fato de eu frequentar o Terreiro de Oxumaré em dias de aula e dias de festa, porque das ossadas das cabras eu tinha medo, mas dos mingaus, dos carurus e das feijoadas sempre gostei muito.
Tenho que admitir: quanto mais sei, sei que não sei. Imagino que uma educação onde a definição de gênero não se reduza à binariedade facilitaria o respeito, ajudaria a haver menos violência contra pessoas vulnerabilizadas em nosso mundo. Por isso agradeço e compartilho. Sei que quanto mais compartilho, mais ganho. Ainda virão outros temas. Fica-me a pergunta: por que esse tipo de informação não vem sendo mais divulgado nas comunidades de fé monoteísta, que, na verdade, nada mais são do que uma descendência do judaísmo? Por que se referem a essa ascendência do cristianismo, mas recusam essa perspectiva?
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